Quiasma tocante/tocado
Um corpo que sente ao mesmo tempo que é um corpo sentido - e sentido por si mesmo...
Toca quando é tocado; é tocado quando toca.
Corpo que sente, corpo que é sentido, tornando-nos mesmidade e alteridade (o outro em nós mesmos). Concomitantemente.
A minha mão direita - o tocante - toca a minha mão esquerda - o tocado. Mas esta relação é reversível. É a mão esquerda que toca agora a minha mão direita.
Tocar releva necessariamente um poder-tocar.
Poder-tocar significa encontrar-se na posse de um tal poder!: o poder de se mover, no qual o poder-tocar se move ele mesmo, de modo a poder-tocar tudo aquilo que ele é capaz de tocar. ARQUICARNE!
Desfilar de corpos...
A mão dirige-se para outros corpos, tocando-os, percorrendo-lhes as formas, experienciando, neste contacto, uma série de sensações.
A deslocação da mão sobre as diferentes partes do corpo revela-nos a realidade desse corpo, delimitando os seus contornos.
Órgão móbil, num corpo mundano: Intencionalidade e Poder.
Esta intencionalidade do tocar nunca se passa noutro lugar senão ALI...
Automovimento que não se abandona a si mesmo, não deixando dele separar-se parcela alguma de si, numa exterioridade qualquer.
Impulso carnal.
Órgão móbil, constantemente dirigido.
Tocar, agarrar, apalpar:
O ‘em-fente’, o ‘ob-jecto’.
Movimentos intermitentes, ao som do ritmo cardíaco...
On/Off... On/Off... On/Off...
Perdermo-nos por entre flancos...
O ser-na-posse-de-si de um tal poder: a possibilidade de agir de cada um dos nossos poderes!
Auto-revelação carnal. Possibilidade que domina todas as “actualizações”, que domina passado, presente e futuro. Desenvolver todos os “poderes” do meu corpo. Poderes indefinidamente repetíveis. Estes poderes estão em mim como um só corpo, uma só carne. O PODER DA CARNE!
Carne ek-stásica. Carne mundana. Ser ela mesma um Si inexoravelmente ligado a si, destinada a residir em si mesma, esmagada contra si mesma no seu infrangível pathos - carne translúcida, transparente, reduzida a uma película sem espessura...
INTERVALO – fui dar uma queca. Volto já. (Aproveite para dar a sua...)
Memória de um corpo que se lembra, a cada momento, do modo de se dirigir para o ser desejado. Assim o sustenta e o guarda na sua carne, da qual jamais se separa, da qual jamais perde a memória.
A memória de cada movimento que me uniu a um corpo particular, que lhe seguiu os contornos e desposou as suas formas – que o conheceu na intimidade. É o mesmo movimento que, repetindo-se, permitir-me-á reconhecê-lo. Memória inscrita na minha corporeidade.
“Se o mundo não cede em parte alguma, se a trama do sensível é continua, sem falha nem lacuna, e se não se desfaz em ponto algum, se cada fibra ou cada grão que a compõem é indefinidamente evocável, é porque cada um dos poderes que me levam até eles é o poder de uma carne que nada separa de si, sempre presente a si na sua memória sem distância, sem pensamento, sem passado – na sua memória imemorial. É a minha carne que é indestrutível.(...) A recordação das coisas está invencivelmente ligada por nós à recordação dos caminhos que a elas conduziram, à recordação dos nossos esforços para as assumir ou afastar, para as provocar. (...) ‘A lembrança de um acto contém o sentimento do poder de o repetir’.”.
Memória da Carne. Intenção de tocar, beijar, entranhar o ser amado. LOUCURA. “Fora de nós” - perder-se fora de si.
(EVOCO-TE!)
Deixando de lhe obedecer este, ela choca com ele num muro intransponível, cego e sem brecha- neste corpo impenetrável no interior do qual ela jamais penetrará porque não tem qualquer interior e jamais o terá.
Modificar, romper, moer, amassar, destruir ou pelo menos alterar o que deixou de lhe obedecer e que deixando, de algum modo de lhe estar submetido, permanece para ela, num sentido radical, o estranho.
Uma carne que se sente na felicidade de desenvolver livremente os seus poderes...
Tenho um interior, habitado por uma carne, na qual o mundo é imprimido.
A pele.
Linha visível e invisível, na qual vêm articular-se as nossas sensações cinestésicas, assim como as que provêm dos nossos sentidos. ‘Super-fície’ – duplicidade que faz das impressões do nosso corpo, paisagens de cores, zonas tactilmente sensíveis, zonas erógenas.
A nossa pele é o lugar onde se entrelaçam, se trocam e se modificam, constantemente, múltiplas sensações. O interior vem à flor da pele; o exterior é absorvido até às vísceras...Actua sobre si mesma em função das impressões que sente, a fim de afastar as que ferem, acolher as que lhe dão gozo.
São as impressões sensíveis específicas de prazer e desprazer que estão na origem dos nossos movimentos. É uma teleologia sensível, sensual, ao qual permanecem, inevitavelmente, sujeitos.
Que um deles, movendo-se sobre o corpo, encontre o prazer, é sobre ele que se fixará, é com vista a produzi-lo ou a reproduzi-lo que se reproduzirá.
É o princípio do comportamento erótico do homem, de toda a humanidade - o seu pecado original.
A Carne é o lugar de perdição e de salvação.
(Carrie feat. Michel Henry)
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