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22.3.12

how to deconstruct Derrida


ask him about loooove...


14.3.12

je veux


un louboutin


ou deux


ou neuf

25.2.12

god save the pole

This video is titled “BEST Pole Dance Ever”.
In a performance titled ”Pole Pressure” for the showcase of the STARS, dancer Jenyne Butterfly shows off her totally amazing dance moves, which are one part acrobatics, one part Cirque de Soleil and all parts sexy.

17.1.12

DESIGN BEHIND DESIRE


Cover
© Design Behind Desire for THE CURATED COLLECTION™, Farameh Media

"In this book, the strongest desire is illustrated in many different ways; the desire being that of SEX. This is the strongest form of need, hence if we were to say Sex behind design, Sex = dynamism, power, control, wealth, lust, liberation, freedom, breaking boundaries etc. All these features are what design is all about or what it wants to be. It is very hard to talk about the one without the existence of the other. Browsing through the photographs page after page moving from elements of the erotic bohemian to soft romantic porn, you grasp the importance of sensuality in design.

Sex objects aimed for pleasure which can easily be worn as jewelry, garments with lace & exquisite knitting details and sexual toy chests presented as unique furniture pieces for your living room, are just some examples of the unique pieces that have undergone the long and detailed process of design. This presentation has made us pay notice to the expectations and needs of every single individual that knows how to give or receive pleasure."

27.11.11

bonjour amour

- ou o eterno amanhecer de um amor.

"O amor é uma questão confusa em Sartre, mas uma questão radiosa também. Se o amante pode de facto encontrar-se envolto em inquietação, pela obsessão de não ser mais do que um simples instrumento da satisfação narcísica do outro, ele pode também extrair daí a salvação. Imperfeito, mortal, ele pode também tornar-se «único» pela graça que alguém lhe concede amando-o. Pode estar protegido de qualquer eventual desvalorização, tornar-se um fim em si mesmo, um valor absoluto. Não já um exemplar de entre milhões de exemplares, mas uma singularidade excepcional. Não já um anónimo grão de poeira destinado a voltar a ser pó, mas uma «alma», no sentido quase religioso do termo.

O amor, único infinito disponível num mundo esvaziado de deuses? André Breton tornar-se-á o arauto desta visão em O Amor Louco, onde exaltava a fusão total entre dois amantes como a única passagem natural e e sobrenatural que ainda pode ser lançada sobre a vida. O teórico do surrealismo fazia de si mesmo, contudo, o cantor do amor exclusivo, condição sine qua non para alcançar o nirvana que restitui «a todas as coisas as cores perdidas do tempo dos antigos sóis». Para isso, maltratava aí o sofismo medonho, do seu ponto de vista, que consistia em defender que o tempo corrói inevitavelmente o amor, leva cada um a perder a pouco e pouco o seu carácter electivo em relação ao outro, e fatalmente a apaixonar-se por fora, de modo a reencontrar a mesma emoção. Um caminho que Sartre não percorrerá evidentemente, como praticante activo de amores múltiplos. todavia, era aí que conduziam, em linha recta, os princípios da sua filosofia emergente. De resto, ele nunca teorizará o amor libertário, excepto na sua correspondência. É de crer que a seus olhos isso não fosse pura e simplesmente justificável em termos filosóficos.

«Como é bom que eu tenha olhos, cabelo, sobrancelhas e os prodigalize incansavelmente numa torrente de generosidade perante esse incansável desejo a que outrem dá livremente corpo», escreve Sartre, numa espécie de tirada mística onde está expressa toda a sua confiança no amor. «Em vez de, como antes de sermos amados, nos inquietarmos com esta protuberância injustificada, injustificável que era a nossa existência; em vez de nos sentirmos «a mais», sentimos agora que esta existência foi retomada e desejada nos seus mais ínfimos detalhes por uma liberdade absoluta que ela ao mesmo tempo . Está aí o fundamento da alegria do amor desde que ela existe: sentirmos a nossa existência justificada.» Amado, já não sou um elemento que se destaca com o mundo como pano de fundo, sou aquele através de quem o outro vê o mundo. Amado, eu próprio me torno o mundo. E que mais acrescentar a isto, de facto? Nunca ninguém aprendeu melhor aquilo que move homens e mulheres a lançarem-se tão selvaticamente e de um modo tão constante num sentimento que por vezes os destrói, frequentemente os perde, nalguns casos os salva."


Aude Lancelin, Marie Lemonnier,
OS FILÓSOFOS E O AMOR

9.11.11

JE T'AIME

5.8.11

trágica, trágica, trágica!


"O INTRATÁVEL

AFIRMAÇÃO. Perante e contra tudo, o sujeito afirma o amor como valor.


1. 1. Apesar das dificuldades da minha história, apesar dos incómodos, das dúvidas, dos deseperos, apesar da vontade de tudo abandonar, não deixo de afirmar a mim mesmo o amor como um valor. Escuto todos os argumentos que os mais diversos sistemas utilizam para desmistificar, limitar, apagar, em suma, depreciar o amor, mas obstino-me: “Bem sei, mas mesmo assim...” Atribuo as desvalorizações do amor a uma espécie de moral obscurantista, a um realismo-farsa, contra os quais defendo o real do valor: oponho a tudo “o que não corre bem” no amor a afirmação do que nele há de valor. Essa teimosia é o protesto do amor: no concerto das “boas razões” de amar de outro modo, de amar melhor, de amar sem estar apaixonado, etc., faz-se ouvir uma voz teimosa que se prolonga durante algum tempo mais: a voz do Intratável apaixonado.

O mundo submete todo o empreendimento a uma alternativa: o sucesso ou o insucesso, a vitória ou a derrota. Protesto com base numa outra lógica: estou, ao mesmo tempo e contraditoriamente, feliz e infeliz: “sucesso” ou “insucesso” não têm para mim senão um significado contingente, passageiro (o que não impede a violência dos meus sofrimentos e desejos); o que me anima, surda e obstinadamente, nada tem de táctico: aceito e afirmo, independentemente de ser verdadeiro ou falso, bem sucedido ou mal sucedido; fasto-me de toda a finalidade, vivo à mercê do acaso (à medida que as figuras do meu discurso me vêm à mente como as jogadas dos dados). Enfrentando a aventura (o que me sucede), não saio nem vencedor nem vencido: sou trágico. (Dizem-me: essa forma de amor não é viável. Mas como avaliar a viabilidade? Por que razão ser viável é um Bem? Por que razão durar é melhor do que arder?)


2. 2. Devia escrever urgentemente, naquela manhã, uma carta “importante” – da qual dependia o sucesso de certo empreendimento; mas, em vez disso, escrevi uma carta de amor – que não enviei. Abandono alegremente tarefas mornas, escrúpulos razoáveis, condutas reactivas, impostas pelo mundo em benefício de uma tarefa inútil, originada num Dever incontestável: o Dever de amor. Faço discretamente coisas loucas; sou a única testemunha da minha loucura. É a energia o que o amor descobre em mim. Tudo o que faço tem um sentido (posso, portanto, viver sem me lamuriar), mas esse sentido constitui uma finalidade inatingível: não é senão o sentido da minha força. Inflexões dolentes, culpadas, tristes, todo o reactivo da minha vida quotidiana regressou. Werther louva a sua própria tensão, e afirma-a, face às vulgaridades de Alberto. Nascido da literatura, não podendo exprimir-me senão com o auxílio dos seus códigos gastos, estou, no entanto, só com a minha força, condenado à minha própria filosofia."


ROLAND BARTHES, FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO



20.7.11

the scent



"In general, women are much more interested in others. This can be seen,
for example, in the use of transitive verbs with the person as the animate
object - ‘je le lave’ [I wash him], m’aimes-tu?’ [do you love me?] - or of
prepositions expressing intersubjectivity; avec [with], entre [between, amongst],
a [to], pour [for], etc.[. . .] Women are more attentive to the question of place:
they are close to things, to others (autres, which is related to one of the
indo-european roots of the verb etre [to be]."

- Jane Rendell -


17.2.11

o jogo da liberdade da alma*

"E disse-lhe:

- É preciso limpar o figurino da inteligência – E apontei, imperceptivelmente com a cabeça para o piano, apesar de saber que o primeiro objecto em que pensara fora o pénis erecto do homem. Sobre ele repousa, de facto, a polissemia do toque – tocar a uma porta, tocar em alguém, tocar um instrumento -, mas eu referia-me, sem qualquer ambiguidade, ao toque leve de um vestido sobre a pele.

E expliquei-lhe que o vestido passa pelo pensamento, desce sobre o corpo e cobre os objectos do corpo,

que são as rememorações fotográficas do pudor. Sim, esse toque pode lembrar o pénis de um homem, estar misteriosamente ligado ao seu poder de toque.

- Sim – diz-me ela.

Perdi muito tempo imaginando que esse toque vestia a substância.

De facto, vestir a substância, contei-lhe, orná-la é um hábito que me ficou da época de O Livro das Comunidades

e, hoje, que a minha memória se estende ao tempo de Jodoigne, lembro-me de que compunha vestidos para o meu próprio corpo e que, a partir daí – do figurino, do corte, do juntar as peças, do coser, do provar, da procura de um adereço-, eu me sentia crescer como um cisne,

como um cisne vogando através das águas de um lago. Foi, de facto, uma frase. O lago, de certo modo, tinha herdado o poder do toque. No entanto, a presença da água nunca é de confiar. O que nela acabou por prevalecer foi o fluir, a água corrente, o rio inesquecível _____ o poder de toque deixara de estar fixo,

depois, deixara de estar cercado

agora, simplesmente fluía,

e escrevia como hoje em que me apetece voltar, de novo, a coser, a unir as costuras de uma saia.

Não, não procurava a minha própria beleza, eu sabia que

não estava destinada a isso.

Eu queria o poder,

o poder dos meus atributos,

o poder de não estar à espera,

o poder de chegar ao corpo.

- Não queria um homem? – perguntou-me.

Foi quando escrevi, no meio de uma saia aberta sobre a cama _____ o homem tem de renunciar ao poder, e a mulher ao homem

não invocando a abertura da saia,

a racha lateral que lhe abri

qualquer pedra de toque

vi

vi fisicamente, cair para o chão a fala,

esse poder de ficção,

essa narrativa interminável do toque, do toque a rebate, do toque em falso, do toc como eram, então, os adereços da substância, e vi

a saia abrir-se em poder de evocação, a bater-me no corpo enquanto corria, felicidade, tristeza e leveza alternando-se,

eu, a correr com Jade à minha frente,

ele, levantando a caça, e eu

procurando o pensamento que surgia e ressurgia por entre portas da paisagem.

- Sim. Amei-o. Levantava a caça. Fazia o que sabia. Se tivéssemos trocado de lugar, ele teria procurado o pensamento. Passou a dormir sobre essa saia. Nunca mais a usei.

- E o seu homem?

- Tudo reverte ao que será finalmente – e eu ignoro – mas se o “finalmente” se sentir,

como hoje me sinto,

ou for o que a música é,

neste momento,

será uma realidade fulgurante, uma muralha de resistência ao

medo e ao

Nada."

* de Maria Gabriela Llansol


12.9.10

assim já se trinca


15.7.10

o amor é um (não) lugar estranho

.


.

(I) O lugar não é simplesmente um algo, mas um algo que exerceu certa influência, isto é, que afecta o corpo que está nele.

(II) O lugar não é indeterminado, pois se o fosse seria indiferente para um corpo determinado estar ou não num lugar determinado. Mas não é indiferente, por exemplo, para os corpos pesados tender para o lugar de 'baixo' e para corpos leves tender para o lugar de 'cima'.

(III) O lugar, embora determinado, não está determinado para cada objecto, mas, por assim dizer, para classes de objectos.

(IV) Embora o lugar seja uma 'propriedade' dos corpos, isso não significa que o corpo arraste consigo o seu lugar. Assim, o lugar não é nem o corpo (pois se o fosse não poderia haver dois corpos no mesmo lugar em diferentes momentos), nem tão-pouco algo inteiramente alheio ao corpo.


(V) O lugar é uma propriedade que nem está inerente aos corpos nem pertence à sua substância; não é forma, nem matéria, nem causa eficiente, nem finalidade, nem tão-pouco substrato.


(VII) O lugar define-se como um modo de 'estar em'.



Aristóteles (livro VI da Fisica)
.

10.7.10

l'officiel homme (nr 7)

.

o homem certo.
ou, certamente, aquele homem que, pelo menos uma vez na vida,
gostariamos de apresentar à nossa mãe. nem que seja errado.
muito, muito errado. não faz mal. não tem que ser certinho.
só tem que valer a pena. WORTH. Wenthworth.
eu mereço.
.

really ridiculously good-looking

.

.

16.5.10

...

.
- quanto mais deixares o tempo passar, mais difícil será encontrares alguém 'disponível' para o amor.
- é verdade. não se pode esperar encontrar um trintão, com todas as qualidades desejadas e, ainda por cima, solteiro. a não ser que a essas qualidades se lhes junte aquela característica difícil de suportar: ser um solteirão inveterado.
- a uma trintona parece só restar esperar por um divorciado, pai de filhos.
- bem vistas as coisas, não é mau. já vem mais preparadinho, maduro, responsável, menos egoísta, sem síndrome de peter pan.
- quer dizer que não te importas de ser a 'SEGUNDA ESCOLHA'?
- qual segunda escolha?!... prefiro chamar-lhe a 'ESCOLHA (mais) ACERTADA'.
.
.

26.1.10

"Ninguém é insubstituível. Ninguém é substituível. Ambas são verdade no mesmo tempo, no mesmo lugar, nas mesmas circunstâncias, para um mesmo objecto, segundo um mesmo sujeito, embora não sejam miscíveis. Ou bem que uma ou bem que a outra, mas elas insistem em coexistir. E dizer-se que uma é verdade até um dado ponto em que cede o lugar à justeza da outra não se aplica sempre que se fala de algo mais, muito mais, que de funcionários. Isto não faz sentido? Não há lugar para o sentido quando se fala de sentimento. Fazes sentido ou fazes o que é sentido, sempre que se fala de mais, muito mais, que de relatórios. O ponto em que um deles tem de ceder lugar ao outro é o ponto inicial. Ou um ou o outro, nada de misturas, porque o mundo, qualquer mundo, é pequeno demais para ambos. A coexistência é impossível. No mesmo tempo, no mesmo lugar, nas mesmas circunstâncias, para um mesmo objecto, segundo um mesmo sujeito, um dos dois terá de ser mentido para que não reste apenas a nitidez do vazio."

Já não é surpresa para ninguém o facto de
eu gostar de (per)seguir este moço.
.
.

7.1.10

só se come um sonho no natal

por Patricia Reis

"Não me digas nada.

Fecha a porta.

Deixa no trinco, não faz mal.

A tua boca sabe-me a morango e whisky e o teu suor tem aquele amargo do tabaco.

Este quarto não é nosso, é meu. Tudo aqui é apenas meu.

Há um sofá de pele preta e as minhas pernas colam-se, giram, fico com o braço pendurado, a cabeça de lado, a tua mão no meu cabelo. Não há barulho. Apenas o zumbido do frigorífico, o mini-bar. Parece que me ouves. A tua língua pára, levantas-te do chão, os joelhos marcados, pêlos ásperos do tapete, lã a desenhar arabescos, flores e pássaros, não consigo defini-los com exactidão.

Não interessa.

Tu de pé, eu a gemer, sem a tua língua. A mão na porta do mini-bar, uma garrafa de champagne de pequenas dimensões, a rolha e o poc a fazer borbulhas de gás. Continuo de barriga para baixo e tu despejas o champagne no meu sexo e bebes.

O frio faz-me estremer. Tanto que eu queria ouvir-te falar, dizer o meu nome, mas tu nem isso sabes.

Sou apenas o corpo de costas no sofá, rabo espetado para cima, marcas de suor na pele preta.

Sexo não é amor, pois não?

E o que estou eu a fazer aqui? Tu, de forma sincopada, em gestos que são apenas animais e cheios de um instinto qualquer ancestral, segues o teu caminho até ao prazer. Movimentas o meu corpo e eu fico-me, sem dizer nada. Vou contigo como numa dança encenada de tareia, um wrestling moderno. Repara que não te amo, nunca te irei amar. Estou aqui disponível por mera solidão. Esta época do ano é mesmo assim. Tens em casa a mulher e filhos. Aposto que a tua casa cheira a coisas de Natal, lareira acesa, uma árvore luminosa, intermitente, elegante e cristã, pacotes embrulhados com laços bem feitos, impecáveis.

A tua mulher sorri quando tu chegas. Aposto. Sorri todos os dias. E recorda aquela frase, contigo a cair de bébado, uma noite, logo no princípio, a dizeres que precisas de ser abraçado todos os dias. Por isso, a tua mulher sorri, o que é uma forma de abraço. Tem as mãos a cheirar a cebola ou uma fralda suja, pronta para ser deitada fora, um tapete para aspirar, uma qualquer banalidade da vida doméstica, certinha. Ela faz o melhor que pode.

Eu sei que faz.

Enquanto tu vais e vens dentro de mim, gemendo baixinho, neste hotel sem história, sei tudo sobre ti e sobre a tua vidinha. Tens uma existência pequenina, sempre tiveste. Ontem, quando nos cruzámos, ao fim destes anos todos, tu disseste

Olha que eu ainda te desejo.

Pois, estou no hotel do costume. Basta bateres à porta.

Não resistes a uma provocação. Sempre foi assim e eu joguei aquela carta para saber se ainda tenho poder sobre ti; se ainda te posso dar qualquer coisa que a tua mulher nunca descobrirá. Precisamente por ser casada contigo está perante o desconhecido. Talvez o suspeite, mas duvido. Eu sou a mulher que se cruza na tua vida, sem estatuto, exigências ou sorrisos. Sei que existe uma maldade dentro de ti que os outros não vêem. Leio os teus pensamentos antes mesmo deles atingirem ao teu cérebro. É quase como se te tivesse criado. Tenho vertigens sobre o teu corpo, há um abismo que se abre e vejo o buraco mais negro quando me beijas. Penso nestas coisas enquanto fodemos e nunca serei capaz de te dizer metade, de te dizer seja o que for. Ficou tudo decidido há muito tempo. Eu tinha quinze anos, quase dezasseis. Ainda sinto a tua mão a puxar-me o cabelo, de forma ritmada, eu a lamber-te e, no momento em que inundaste a minha cara, afastei-me com nojo e ficaste com uma mão cheia de cabelos meus. Tive-te um asco quase animal. E tu sussurraste

Puta. És uma puta.

Pode ser que seja. A minha vingança foi ter deixado que outro fosse o primeiro, “o oficial”. Aquele momento, atrás do barracão da ginástica, na véspera das férias de Natal, foi eliminado pela perda da virgindade, pela entrega voluntária. Escolhi-o a dedo, repara, com requinte e malvadez. Um outro, coitado, que mal sabia ao que ia, mas que fez o seu melhor e não me chamou nomes. Ficou em silêncio no fim. Tirou o preservativo, limpou-se com um lenço de papel e acendeu um cigarro

Queres?

E eu que sim, claro, um cigarro para acalmar a adrenalina, a dor e a vergonha. As coisas mudaram muito. Já não tenho quinze anos, isto não é o liceu e o teu cheiro, essa vertigem de há pouco, é apenas um pormenor que me arrepia se calha a lembrar-me, apesar de nunca pensar em ti. Quando ligaram da recepão do hotel a dizer que estavas à porta, o meu instinto foi lançar uma gargalhada, porém teria sido uma crueldade para o recepcionista e não valia a pena. Contei o tempo que te levou a subir no elevador e despi-me, rápida.

Agora que estás quase no fim, agora que o teu suor se confunde com o meu, vou mergulhar nos teus olhos e, bem lá no fundo, vais ter um vislumbre da verdade de tudo. O teu orgasmo será de dor. E assim, espero ouvir-te gemer um pouco mais alto, sacudindo o corpo em cima do meu, as mãos fortes nas minhas ancas. Quando te abandonares, no teu final, direi

Só se come um sonho no Natal. Já está. Vai-te embora.

Não compreenderás nada. Pouco importa. Quando as festas passarem, as prendas e o bacalhau, essas trocas hipócritas típicas da estação, quando voltares, por fim, ao emprego lá estarei, a imagem da rapariga do barracão. Mesmo que tu não queiras. Sou a tua nova chefe. Assim, de forma inesperada. A rapariga do barracão de ginástica foi contratada para colocar ordem no caos que tu criaste e com poderes para avançar com uma ordem de despedimento colectivo. Podes, então, suspirar com propriedade

Puta. És uma puta.

Terás a razão do teu lado. Eu não me importo.

E agora, agora que estás a diminuir o batimento cardíaco, a tua respiração começa a normalizar, vê como me satisfaço até ao fim, porque tu, simplesmente, não sabes como é que isso se faz."

18.12.09

querido pai natal...

.



... este ano, portei-me muito mal.
por isso, acho que mereço todos os presentes
(e mais alguns).
esforcei-me para isso.

10.11.09

perfection (if it exists)

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"Jacques Lacan define a arte em relação com a Coisa: no seu seminário A Ética da Psicanálise, afirma que a arte enquanto tal está sempre organizada em torno do Vazio central da Coisa impossível-real - afirmação esta que talvez deva ser interpretada como uma variação da velha tese de Rilke segundo a qual a Beleza é o último véu que cobre o Horrível."

Slavoj Zizek, Lacrimae Rerum
.

7.11.09

let's get lost

escutar aqui.
.
“Morte ao Sol”

Eu gosto da Carla Bruni. Especialmente, gosto muito do primeiro disco da Carla Bruni. Eu gosto muito do Rui Reininho e das letras dos GNR, especialmente daquelas que não fazem sentido nenhum. Porque não fazem sentido nenhum. E não sei porque nunca ninguém lhe perguntou qual é o método de composição dele. Aqueles versos e a métrica, tudo aquilo é fantástico. Ia adorar saber o que ele pensa. Oiçam Morte ao Sol ou Pronúncia do Norte, deitados ao lado de alguém de quem gostem muito e, se possível, depois de terem fumado um piriri. Se a companhia for boa terão um grande momento porque tudo aquilo é muito, muito à frente. E felizmente não tenho explicações para gostar tanto. Como não tenho explicação para gostar da maioria das coisas que gosto, ou para gostar sempre desalmadamente das pessoas da minha vida. Mesmo quando essas pessoas deixam de gostar de mim. E isso acontece, sim.
Para isto dos nossos amores, de entender bem o porquê dos nossos amores, fazemos imensas perguntas existenciais quando somos mais novos e depois se tivermos juízo, ao longo da vida e sempre que coisas estranhas voltem a acontecer, aprendemos a deixar-nos levar, caladinhos que nem um rato e a ouvir de joelhos o Chet Baker. O Chet Baker que sabia muito bem o que é ficar sem Norte. O amor passa a ser, para nosso bem, igualzinho àquela música, uma espécie de Let´s get lost , isto é, um vale tudo menos tirar olhos.
Quem ama como deve ser, sabe que o amor é bom quando é uma perdição, quando o amor é uma gula e um desejo e uma luxúria e preguiça e vaidade e é também mais coisas que as palavras não dizem, mas que devem estar todas naquela representação do Bosch dos Sete Pecados Capitais.
Uma vez, um amigo meu disse-me que eu precisava ser mais organizadinha na minha escrita. Sei que sim, mas como ainda não sou, terão o direito de achar que estou maluca, se vos disser que também posso morrer de vontade de uma feijoada da mesma maneira e tanto, como morro de vontade de alguém de quem goste, principalmente se estou a fazer dieta. Pessoas bem amadas comem que se desunham, ou então não comem nada, mas andam sempre muito, muito felizes. E a felicidade é uma coisa que interessa tanto como o excesso e o excesso não se compadece com dietas e as pessoas que fazem dietas- e bebem Coca Zero - são as mesmas que dizem que não são ciumentas.
Pronto, finalmente chegámos. E alguém que não ande a tomar comprimidos estará interessado em pessoas que dizem, normalmente muito alto: Ai eu cá não sou ciumenta(o?). Olhem, então na minha vida é assim: Quem não for excessivo a comer e no amor pode sair logo. E quem não tiver já morrido de ciúmes muitas vezes na vida, e quem não for ficar verde de ciúmes meus, ora essa, idem.
O amor não é uma coisa light nem limpinha. O amor não obedece aos controleiros da ASAE. Eu quero ciúmes e cenas para depois fazer as pazes com o meu amor. Pessoínhas muito politicamente correctas, que bebem Coca Zero e comem saladas são imediatamente empandeiradas. E isto não se trata de um fundamentalismo bacoco. Acontece-me. Sou assim. Acabo sempre a morrer de ciúmes dos excessivos e comilões. Os que no amor navegam sem bússola e gostam de carne em sangue. Os que choram baba e ranho e andam sempre com Kleenexes porque complicam tudo e se angustiam com a quantidade de outros seres maravilhosos, lindos e interessantes que cruzam as nossas vidas diariamente.
Normalmente os muito ciumentos, como eu, têm um problema. Aliás têm vários. Mas o principal é a mistura explosiva de egotismo, insegurança e imaginação. Que nos torna especialmente nojentinhos e tortuosos e com dores que normalmente vão desde as articulações à raiz dos cabelos.
O Caetano Veloso, ciumento confesso explica tudo muito bem explicadinho nos versos daquela outra música brilhante, cantada pela Elza Soares (olha outra), O ciúme dói nos cotovelos, na raiz dos cabelos, gela a sola dos pés e depois ainda completa com uma tal de luz branca que se acende no umbigo. Ora todos nós, ciumentos confessos, sabemos muito bem o que é essa luzinha branca esquisita, que se acende no nosso umbigo egocêntrico, quando estamos à beira de uma avalanche de ciúmes. E não é bom, não é, não é, não é. É horrível, incapacitante e burro. Se há coisa que o ciúme é, é burro.
Outro dia, atacadíssima, acabei a deambular pela Avenida Ataúlfo de Paiva, às 23.42 h, sem querer saber dos pivetes que tentavam, com dedicação sem precedentes, parar-me para me engraxar as Havaianas. Nem desconfiei, quis lá saber que fosse humanamente impossível engraxar Havaianas, maluca de todo, porque o meu amor se estava a apaixonar, notem, se estava a apaixonar - o problema não era ele já estar apaixonado, era o caminho, o estar a, o momento espectacular em que se está quase, e a beber gins tónicos, mas ainda não – por outra alminha. E o pior é que era uma alminha gira, inteligente e com mamas verdadeiras e na minha cabeça deviam estar já a discutir, há uma hora e tal, a vanguarda cinematográfica dos anos 20 e O Couraçado Potemkin, do Eisenstein, o que só os poderia levar a um lugar qualquer com uma cama redonda com colchão de água, uma vista espectacular para o Oceano Atlântico e as Ilhas Cagarras. Tenho dias que não me aguento... Será que a Carla Bruni é ciumenta?
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por Mónica Marques
Publicado na revista do i, Nós Ciumentos

28.10.09

continuas chamando-me assim 'bebé, bebé'. be-a-triz!, meu querido.

A essência e o tipo de um amor delineiam-se mais rigorosamente no destino que ele reserva ao nome – ao nome próprio. O casamento, que rouba à mulher o seu nome de família para colocar em seu lugar o do marido, acaba também – e isto aplica-se a quase todas as formas de proximidade dos sexos – por não deixar intacto o seu nome próprio. Ela envolve-o e transfigura-o com diminutivos e nomes familiares sob os quais ele desaparece ao longo de anos e mesmo decénios. No pólo oposto ao do casamento neste sentido amplo, e só assim – no destino do nome, e não no do corpo – verdadeiramente determinável, está o amor platónico, no seu único sentido autêntico e relevante: como amor que não sacia o seu desejo no nome, mas ama a mulher amada no nome, a possui no nome e no nome lhe faz todas as vontades. O ele preservar e proteger intocado o nome, o nome próprio, da amada – é isso e só isso a verdadeira expressão da tensão, do impulso para a distância, a que chamamos amor platónico. Para este amor, a existência da amada emana do seu nome como os raios que irradiam de um núcleo incandescente, e a própria obra do amante emana dele. Assim, A Divina Comédia mais não é do que a aura em volta do nome Beatriz; é a mais poderosa demonstração de que todas as forças e formas do cosmos emergem do nome, nascido intacto deste amor.
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Walter Benjamin, Imagens De Pensamento
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