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21.3.09

"As virgens que fazem muito caso do tempo"



Apanha os botões de rosa enquanto podes
O tempo voa
E esta flor que hoje sorri
Amanhã poderá estar moribunda.

Robert Herrick

12.3.09

Je vous manque


.
.
Sensation
.
Par les soirs bleus d’été, j’irai dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue :
Rêveur, j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.
.
Je ne parlerai pas, je ne penserai pas :
Mais l’amour infini me montera dans l’âme,
Et j’irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, - heureux comme avec une femme.

Rimbaud

8.3.09


Ela...


...antes

(por Otto Weininger, Sexo e Carácter)


No amor, o homem ama-se apenas a si próprio. Não o seu eu empírico, não as fraquezas e vulgaridades, não os fracassos e os traços de mesquinhez que a sua aparência ostenta, mas tudo o que quer ser, tudo o que deve ser, a sua natureza intelígivel mais verdadeira e mais profunda, livre de todas as cadeias da necessidade, de toda a contaminação terrena...Projecta o seu ideal de existência absolutamente digna, o ideal que é incapaz de isolar no seu íntimo, num outro ser humano, e esse acto, e só esse acto, não é outra coisa senão o amor e o que o amor significa.

(...)

A mulher é total e unicamente sexual, uma vez que a sua sexualidade se estende a todo o seu corpo, limitando-se em certos lugares, para o dizermos em termos físicos, a ser mais densa do que noutros: é sexualmente afectada e penetrada por todas as coisas, a todo o momento e em toda a superficie do seu corpo. Aquilo a que costumamos chamar coito não é mais do que um caso especial de intensidade acrescida... A paternidade é, por isso, um miserável logro: somos obrigados a compartilhá-la sempre com outras inumeráveis coisas e pessoas... Uma entidade que pode ser sexualmente penetrada em todos os pontos e por todas as coisas pode também ser engravidada em toda a parte e por todas as coisas: a mãe é, em si própria, um receptáculo. Nela, todas as coisas vivem, uma vez que fisiologicamente tudo sobre ela actua e forma o seu filho.

(...)

O órgão masculino é para a mulher esse Isso cujo nome ela não conhece; o seu destino está nele, em qualquer coisa a que não pode escapar. Por isso, não gosta de ver o homem nu e nunca manifesta a necessidade de o ver: sente que nesse momento estará perdida. O falo priva completa e irrevogavelmente a mulher da sua liberdade.

(...)

A mulher não é livre (...) a mulher é governada pelo Falo.

(...)

É só quando aceita a sua própria sexualidade, quando nega o absoluto que há nele e se volta para o mais baixo, que o homem dá existência à mulher.
Quando o homem se tornou sexual formou a mulher. Essa mulher só pôde ter lugar porque o homem aceitou a sua sexualidade. A mulher é o simples resultado dessa afirmação; é a pópria sexualidade...
Portanto, o objecto da mulher tem de ser que o homem continue a ser sexual...não tem senão um propósito, que é o de continuar a culpa do homem, uma vez que desapareceria no momento em que o homem superasse a sua sexualidade.
A mulher é o pecado do homem.

(...)

O crime que o homem cometeu ao criar a mulher, e que continua a cometer consentindo no propósito daquela, através do deu próprio erotismo, desculpa a mulher... A mulher mais não é do que a expressão e a projecção da sexualidade do próprio homem. Todo o homem cria para si uma mulher em que ele próprio encarna na sua própria culpa. Mas a mulher não é, ela própria, culpada: torna-se culpada pela culpa dos outros, e tudo aquilo que leva a condenar uma mulher deveria ser contado ao homem. O amor esforça-se por dissimular a culpa, em vez de a superar; exalta a mulher em vez de a anular.


...e depois

(por Charles Aznavour, "She")


25.2.09

O amor é...outra coisa!

Elogio ao amor (Miguel Esteves Cardoso - Expresso)


Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio,não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

11.2.09

O Amor e o Nada (?)...

Jean Paul et Simone


SARTRE, O Ser e o Nada


I – A Primeira Atitude Para Com o Outro: O Amor, A Linguagem, O Masoquismo

Tudo o que vale para mim vale para o outro. Enquanto tento livrar-me do domínio do outro, o outro tenta livrar-se do meu; enquanto procuro subjugar o outro, o outro procura-me subjugar. Não se trata aqui, de modo algum, de relações unilaterais com um objecto-Em-si, mas sim de relações recíprocas e moventes. As descrições que se seguem devem ser encaradas, portanto, pela perspectiva do conflito. O conflito é o sentido originário do ser-Para-outro.

Se partimos da revelação inicial do outro como olhar, devemos reconhecer que experimentamos nosso inapreensivel ser-Para-outro na forma de uma posse. Sou possuído pelo outro; o olhar do outro modela meu corpo em sua nudez, causa seu nascer, o esculpe, o produz como é, o vê como jamais o verei. O outro detém um segredo: o segredo do que sou. Faz-me ser e, por isso mesmo, possui-me, e esta possessão nada mais é que a consciência de meu possuir. E eu, no reconhecimento da minha objectividade, tenho a experiência de que ele detém esta consciência. A título de consciência, o outro é para mim aquele que roubou meu ser e, ao mesmo tempo, aquele que faz com que “haja” um ser, que é o meu. Assim, tenho a compreensão desta estrutura ontológica; sou responsável por meu ser-Para-outro, mas não seu fundamento; meu ser-Para-outro aparece-me, portanto, em forma de algo dado e contingente, pelo qual, todavia, sou responsável, e o outro fundamenta meu ser na medida que este ser é na forma do “há”; mas o outro não é responsável por ele, embora o fundamente em completa liberdade, na e por sua livre transcendência. Portanto, na medida que me desvelo a mim mesmo como responsável por meu ser, reivindico este ser que sou; ou seja, quero recuperá-lo, ou, em termos mais exactos, sou projecto de recuperação de meu ser. Quero estender a mão para apoderar-me deste ser que é-me apresentado como meu ser, mas à distância, como a comida de Tântalo, e fundamentá-lo por minha própria liberdade. Porque, se em certo sentido meu ser-objecto é insuportável contingência e pura “posse” de mim por um outro, em outro sentido este ser é como a indicação daquilo que eu precisaria recuperar e fundamentar para ser fundamento de mim mesmo. Mas isso só é concebível caso eu assimile a liberdade do outro. Assim, meu projecto de recuperação de mim é fundamentalmente projecto de reabsorção do outro. Todavia, tal projecto deve deixar intacta a natureza do outro. Significa que: 1º) Não deixo por isso de afirmar o outro, ou seja, de negar que eu seja o outro: sendo fundamento de meu ser, o outro não poderia diluir-se em mim sem que meu ser-Para-outro desaparecesse. Logo, se projecto realizar a unidade com o outro, significa que projecto assimilar a alteridade do outro enquanto tal, como minha possibilidade própria. Com efeito, trata-se, para mim, de fazer-me ser adquirindo a possibilidade de adoptar sobre mim o ponto de vista do outro. Mas não se trata de adquirir uma pura faculdade abstracta de conhecimento. Não é da pura categoria do outro que projecto apropriar-me: tal categoria não é concebida, nem mesmo concebível. Mas, por ocasião da experiência concreta, padecida e ressentida do outro, é este outro concreto, como realidade absoluta, que almejo incorporar em mim mesmo, na sua alteridade. 2º) O outro que pretendo assimilar não é, de forma alguma, o outro-objecto. Ou, se preferirmos, meu projecto de incorporação do outro não corresponde, de modo algum, a uma recuperação de meu Para-si como mim mesmo, nem a um transcender de transcendência do outro rumo às minhas próprias possibilidades. Para mim, não se trata de fazer desaparecer minha objectividade objectivando o outro, o que corresponderia a me desembaraçar de meu ser-Para-outro, mas sim, muito pelo contrário, de querer assimilar o outro enquanto outro-olhador, e tal projecto de assimilação comporta um reconhecimento ampliado de meu ser-visto.

(…)

A unidade com o outro é, portanto, irrealizável, de facto. Também o é de direito, porque a assimilação do Para-si e do outro em uma única transcendência envolveria necessariamente a desaparição do carácter de alteridade do outro. Assim, a condição para que eu projecte a identificação do outro comigo é a de que eu persista em minha negação de ser o outro. Por fim, esse projecto de unificação é fonte de conflito, posto que, enquanto experimentando-me como objecto para o outro e projecto assimilar o outro na e por esta experiência, o outro apreende-me como objecto no meio do mundo e não projecta de modo algum identificar-me com ele. Portanto, seria necessário – já que o ser-Para-outro comporta uma dupla negação interna pela qual o outro transcende minha transcendência e faz-me existir Para-outro, ou seja, agir sobre a liberdade do outro.

Este ideal irrealizável, enquanto impregna meu projecto de mim mesmo em presença do outro, não é assimilável ao amor, na medida que o amor é um empreendimento, ou seja, um conjunto orgânico de projectos rumo a minhas possibilidades próprias. Mas é o ideal do amor, seu motivo e sua finalidade, seu valor próprio. O amor, como relação primitiva com o outro, é o conjunto dos projectos pelos quais viso realizar este valor.

(…)

Talvez isso fique mais claro se meditarmos sobre a questão pelo aspecto puramente psicológico: por que o amante quer ser amado? Se o amor, com efeito, fosse puro desejo de posse física, poderia ser, em muitos casos, facilmente satisfeito. Por exemplo: o herói de Proust, que instala sua amante em sua casa, pode vê-la e possui-la a qualquer hora do dia, e soube deixá-la em total dependência material, deveria ficar livre da inquietação. Todavia, sabemos que, pelo contrário, acha-se atormentado por preocupações. É por sua consciência que Albertine escapa de Marcel, mesmo quando ele está a seu lado, e é por isso que ele só se tranquiliza quando a contempla dormindo. Não há dúvida, portanto, de que o amor deseja capturar a “consciência”. Mas por que o deseja? E como?

Esta noção de “propriedade”, pela qual tão comummente se explica o amor, não poderia ser primordial, com efeito. Porque iria eu querer apropriar-me do outro não fosse precisamente na medida que o Outro faz-me ser? Mas isso comporta justamente certo modo de apropriação: é da liberdade do outro enquanto tal que queremos nos apoderar. E não por vontade de poder (…) Ao contrário, aquele que quer ser amado não deseja a servidão do amado. Não quer converter-se em objecto de uma paixão transbordante e mecânica. Não quer possuir um automatismo, e, se pretendemos humilhá-lo, basta descrever-lhe a paixão do amado como sendo o resultado de um determinismo psicológico: o amante sentir-se-á desvalorizado em seu amor e em seu ser. Se Tristão e Isolda ficam apaixonados por ingerir uma poção do amor, tornam-se menos interessantes; e chega até a ocorrer o facto de que a total servidão do ser amado venha a matar o amor do amante. A meta foi ultrapassada: o amante sente-se só, caso o amado tenha-se transformado em autómato. Assim, o amante não deseja possuir o amado como se possui uma coisa; exige um tipo especial de aproximação. Quer possuir uma liberdade enquanto liberdade.
(...)

3.2.09

revolutionary road...

... e a profunda solidão de partilhar a vida com alguém.

10.1.09

Evocando um poema do Zé Pedras...

Federico Garcia Lorca, Pequeño Poema Infinito
New York, 10 de enero de 1930


Equivocar el camino
es llegar a la nieve
y llegar a la nieve
es pacer durante varios siglos las hierbas de los cementerios.

Equivocar el camino
es llegar a la mujer,
la mujer que mata dos gallos en un segundo
la luz que no teme a los gallos
y los gallos que no saben cantar sobre la nieve.

Pero si la nieve se equivoca de corazón
puede llegar el viento Austro
y como el aire no hace caso de los gemidos
tendremos que pacer otra vez las hierbas de los cementerios.

Yo vi dos dolorosas espigas de cera
que enterraban un paisaje de volcanes
y vi dos niños locos que empujabam llorando las pupilas de un asesino.

Pero el dos no ha sido nunca un número
porque es una angustia y su sombra,
porque es la guitarra donde el amor se desespera,
porque es la demonstración de otro infinito que no es suyo
y es las murallas del muerto
y el castigo de la nueva ressurrección sin findes.

Los muertos odian el número dos,
pero el número dos adormece a las mujeres
y como la mujer teme la luz
la luz tiembla delante de los gallos
y los gallos sólo saben volar sobre la nieve
tendremos que pacer sin descanso las hierbas de los cementerios.

5.1.09

Fantasiar...

“O sonho comanda a Vida”...
e a Fantasia... comanda o Sexo ?







Um dos preconceitos antifeministas diz respeito à suposta afirmação de Lacan de que, uma vez que o desejo e a Lei são as duas faces da mesma moeda, de tal modo que a Lei simbólica, longe de impedir o desejo, faz parte dele, só um homem – dado que inteiramente integrado na Lei simbólica – pode desejar plenamente, enquanto a mulher está condenada ao “desejo de desejar” histérico. Porém, somos tentados a complementar esta tese com o seu contrário quase simétrico respeitante à fantasia: só uma mulher pode fantasiar plenamente, enquanto o homem está condenado a um “fantasiar da fantasia”, em última análise fútil. Recorde-se De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick: só a fantasia de Nicole Kidman é verdadeiramente uma fantasia, enquanto a de Tom Cruise é uma falsificação reflexiva, uma tentativa desesperada de responder ao enigma desta fantasia. Que cena/encontro fantasiado a marcou tão profundamente? O que Tom Cruise faz na sua noite de aventura é uma espécie de deambulação em busca de fantasias. Cada situação em que se encontra pode ser interpretada como uma fantasia realizada – primeiro a fantasia de ser o objecto da paixão da filha do seu doente; depois, a fantasia de encontrar uma espécie de prostituta que nem sequer pretende receber dinheiro; a seguir, o encontro com o estranho proprietário sérvio (?) da loja de aluguer de máscaras, que é um proxeneta da sua jovem filha; e finalmente a grande orgia na mansão dos subúrbios...Isto explica o carácter estranhamente contido, rígido, e mesmo impotente, da cena da orgia, que constitui o culminar da aventura. O que muitos críticos menosprezaram, considerando a descrição da orgia como ridiculamente asséptica e ultrapassada, funciona a seu favor, expressando a paralisia da “capacidade de fantasiar” do herói. Isto explica igualmente a eficácia do plano de Nicole Kidman a dormir, com a máscara a seu lado, sobre a almofada do marido: nesta versão de “a morte e a donzela”, ela efectivamente “rouba os sonhos dele”, ao unir-se com esta máscara, que representa aqui o seu duplo espectral fantasmático. E, finalmente, isto justifica também plenamente a conclusão aparentemente vulgar do filme, quando ele, após confessar a sua aventura nocturna a Nicole Kidman, ou seja, depois de se confrontarem ambos com o excesso do seu fantasiar, esta, depois de se assegurar de que agora estão bem acordados, de regresso ao dia, e de que, para sempre, ou pelo menos por muito tempo ficarão ali, ao abrigo das fantasias, diz-lhe que têm de fazer uma coisa, logo que possível. “O quê?”, pergunta ele, e ela responde “Foder”. Fim do filme, passa o genérico final. Nunca o cinema mostrou tão abruptamente a natureza da passage à l’acte como a falsa saída, como o modo de evitar enfrentar o horror do inferno fantasmático. A passagem ao acto, em vez de lhes proporcionar uma satisfação física real que tornaria supérfluas as fantasias vazias, é apresentada como um subterfúgio, como uma medida preventiva desesperada destinada a manterem à distância o inferno espectral das fantasias. É como se a mensagem que ela veicula fosse a seguinte: vamos foder o mais rapidamente possível para sufocar as fantasias que proliferam, antes que elas nos dominem outra vez...
O dito arguto de Lacan de que o despertar para a realidade é uma fuga ao real encontrado no sonho aplica-se particularmente bem ao acto sexual: não sonhamos com foder quando não somos capazes de o fazer. Fodemos para iludir e sufocar o excesso do sonho que, de outro modo, nos submergiria.


Slavoj Zizek, Lacrimae Rerum

do "PANSEXUALIMO", DE FREUD
até “A RELAÇÃO SEXUAL NÃO EXISTE”, DE LACAN

-Ai os filósofos, os filósofos...






Há no entanto alguns aspectos desta cena que, embora geralmente menosprezados, são fundamentais para o efeito pretendido. Em primeiro lugar, não devemos esquecer o facto mais do que óbvio de que o plano panorâmico sinóptico que traduz o mistério do ágape ocorre enquanto Julie se encontra em pleno acto sexual – regressamos aqui à noção lacaniana de que o amor supre a inexistência de relação sexual. Geralmente, considera-se que o suposto “pansexualismo” de Freud significa que “independentemente do que façamos ou digamos, estamos sempre, em última análise, a pensar naquilo”, ou seja, a referência ao acto sexual é o horizonte último do significado. (*) É preciso afirmar, contrariando este lugar-comum, que a revolução freudiana consiste exactamente no oposto: foi o universo ideológico pré-moderno que “sexualizou” todo o universo, concebendo a estrutura básica do cosmo como a tensão entre os “princípios” masculino e feminino (yin e yang), a tensão que se repete em níveis diferentes e cada vez mais elevados (luz e escuridão, céu e Terra), de tal modo que a própria realidade aparece como resultado da “copulação” cósmica destes dois princípios. O que Freud consuma aqui é precisamente a dessexualização radical do universo. A psicanálise extrai as consequências últimas do “desencantamento” moderno do universo, a noção do universo como uma multiplicidade contingente e desprovida de significado. A noção freudiana de fantasia aponta precisamente nesta direcção: o problema não é o que estamos a pensar quando estamos a fazer outras coisas quaisquer, mas o que estamos a pensar (a fantasiar) quando efectivamente estamos a “fazer isso”. A ideia lacaniana de que a “a relação sexual não existe” significa, em última análise, que, enquanto estamos a “fazer isso”, quando estamos empenhados no acto sexual em si mesmo, precisamos de um suplemento fantasmático, temos de pensar noutra coisa qualquer, de fantasiar com ela. Não podemos simplesmente “mergulhar totalmente no prazer imediato do que estamos a fazer”. De outro modo, perde-se a tensão do prazer. Esta “outra coisa qualquer” que sustenta o próprio acto é a matéria da fantasia, geralmente qualquer pormenor “perverso” (desde um aspecto característico do corpo do/da amante, ou a peculiaridade do lugar em que estamos a fazer “isso”, até a um olhar imaginário que nos estaria a observar).



(*) Na medida em que aceitarmos esta noção de relação sexual como a referência absoluta, somos tentados a rescrever toda a história da filosofia moderna nos seguintes termos:

- Descartes: “Fodo, logo existo”, isto é, só na actividade sexual intensa sinto a plenitude do meu ser (a resposta “descentradora” de Lacan a isto teria sido: “Fodo onde não existo, e não existo onde fodo”, ou seja, não sou eu quem fode, mas “isso fode” em mim);

- Espinosa: Dentro do Absoluto enquanto Foda (coitus sive natura), devemos distinguir, no mesmo sentido da distinção entre natura naturans e natura naturata, entre a penetração activa e o objecto fodido (há aqueles que fodem e os que são fodidos);

- Hume introduz aqui a dúvida empirista: como sabemos se a foda, enquanto relação, existe? Só existem objectos cujos movimentos parecem coordenados.

- Resposta kantiana a esta crise: “as condições da possibilidade de foder são ao mesmo tempo as condições da possibilidade dos objectos [da] foda”;

- Fichte radicaliza esta revolução kantiana: foder é uma actividade incondicional que se postula a si própria e que se divide em fodedor e objecto fodido, ou seja, é o próprio foder que pressupõe o seu objecto, o fodido;

- Hegel: “é crucial conceber o Foder não só como substância (o impulso substancial que nos subjuga), mas também como sujeito (como actividade reflexiva inserida no contexto do significado espiritual)”;

- Marx: devemos regressar ao foder real e rejeitar a filosofice masturbatória idealista, ou seja, nos termos literais em que o expressou na Ideologia Alemã, a vida real está para a filosofia, assim como o sexo real está para a masturbação;

- Nietzsche: a Vontade é, na sua expressão mais radical, a Vontade de Foder, que culmina no Eterno Retorno do “quero mais”, de uma foda que prossegue indefinidamente;

- Heidegger: do mesmo modo que a essência da tecnologia não é nada “tecnológica”, a essência de foder não tem nada a ver com a foda enquanto simples actividade ôntica; ou melhor, “a essência do foder é o foder da própria Essência”, isto é, não somos apenas nós, humanos, que fodemos a nossa compreensão da Essência, é a Essência que já está em si mesma fodida (inconsistente, retraída, errante);

- e, finalmente, a intuição de como a própria Essência está fodida, leva-nos à expressão de Lacan “a relação sexual não existe”.

Slavoj Zizek, Lacrimae Rerum
(referindo-se ao filme Bleu, da triologia Bleu-Blanc-Rouge, de Kiéslowski)

27.12.08

A Insustentável Leveza do Ser



O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes.
O que escolher então? O peso ou a leveza?

Milan Kundera

19.12.08

James Joyce, Querida Nora!

3 de Dezembro (1909)

Minha adorada menina de Colégio de freiras, há uma estrela qualquer que está, neste momento, demasiado perto da terra, pois ainda me encontro em plena crise de desejo animal. Muitas vezes parei hoje na rua, com uma exclamação, sempre que pensava nas cartas que te escrevi nas noites de ontem e anteontem. Lidas à luz crua do dia, devem parecer horríveis. Talvez te enfadasse a sua grosseria. Sei que és muito mais delicada de natureza que o teu extraordinário amante apesar de teres sido tu, tu própria, rapariguinha aluada, a primeira a escrever dizendo que estavas ansiosa por uma foda minha, não obstante eu julgue que a porca e selvagem obscenidade da minha resposta ultrapassou todos os limites do pudor. Esta manhã, quando recebi a tua carta registada e vi quão preocupada te sentes com o teu Jim indigno, senti vergonha do que escrevi. A noite, uma secreta e pecaminosa noite, voltou agora a descer sobre o mundo, e encontro-me de novo só e a escrever-te em cima da mesa. Não peças que vá deitar-me, querida. Deixa-me escrever-te, querida.
Como sabes nunca emprego palavras obscenas quando falo, minha bem-amada. Nunca me ouviste, pois não, pronunciar uma palavra imprópria perante terceiros. Dificilmente sorrio quando à minha frente outros homens contam histórias porcas ou libertinas. Parece no entanto, que me transformaste em animal. Tu própria, rapariga perversa e desavergonhada, é que começaste por abrir caminho. Em Ringsend, já lá via muito tempo, não fui eu quem começou a apalpar. Foste tu quem desceu, desceu a mão sorrateira ao interior das minhas calças e afastou suavemente a camisa, e com longos e titilantes dedos me tocou na p*ça, e aos poucos agarrou nela, grossa e tesa como estava, lentamente a masturbou até eu me vir nos teus dedos, tu debruçada, durante esse tempo todo, sobre mim e a fixar-me com olhos calmos de Santa. Também foram os teus lábios os primeiros a pronunciar uma palavra obscena. Lembro-me bem daquela noite, em Pola, quando fomos para a cama. E que uma noite, já farta de estares deitada por baixo de um homem, tiraste violentamente a camisa e puseste-te em cima de mim para me cavalgares despida. Cravaste a minha p*ça na c*na e começaste a montar-me para cima e para baixo. Talvez eu não estivesse com tesão bastante para o teu gosto, pois lembro-me de estares inclinada sobre o meu rosto e com voz meiga murmurares: “Vá, amor, fode! Vá, amor, fode!”
Querida Nora, tenho andado todo o dia morto por te fazer uma ou duas perguntas. Permite, querida, já que eu te disse absolutamente tudo quanto fiz, que possa por minha vez interrogar-te. Ponho-me a pensar se quererás responder. Quando aquela pessoa, cujo coração eu desejo fortemente parar com um tiro de revólver, meteu debaixo das tuas fraldas a mão ou as mãos, só te fez festas por fora ou meteu o dedo, ou os dedos, dentro de ti? Se assim foi, chegou ao ponto de te tocar no pequeno grelo que tens no fundo da c*na? Tocou-te por detrás? Acariciou-te o tempo suficiente para te vires? Pediu-te para lhe tocares, e fizeste-o? Se não tocaste, veio-se encostado a ti? E sentiste que ele se estava a vir?
Uma outra pergunta, Nora. Sei que fui o primeiro a pôr-me em ti, mas nenhum outro te masturbou? Aquele rapaz de quem gostavas muito nunca o fez? Diz-me, Nora, a verdade por verdade, franqueza por franqueza. À noite, quando te encontravas com ele no escuro, os teus dedos nunca, nunca lhe desabotoaram as calças nem se meteram nelas, sorrateiros como um rato? Diz-me com sinceridade, minha querida, nunca lhe fizeste uma pívia, a ele ou a outro? Até me teres desabotoado nunca, nunca, nunca tinhas sentido nos dedos a p*ça de um homem ou de um rapaz? Se não é coisa que te ofenda, não receies dizer-me a verdade. Adorada, adorada, esta noite sinto uma tão selvagem ânsia do teu corpo, que me atiraria a ti de desejo se estivesses aqui ao meu lado, e mesmo que fossem os teus lábios a dizer-me que antes de mim já tinhas sido fodida por metade desses ruivos estúpidos do Condado de Galvlay.

Deus Todo poderoso! Que linguagem esta, quando escrevo à minha orgulhosa rainha de olhos azuis! Irá ela recusar-se a responder às minhas grosseiras e insultuosas perguntas? Ao escrever assim, sei que corro um grande risco, mas se ela me tiver realmente amor sentirá que ando louco de luxúria e será necessário dizer-me tudo.
Responde-me, coração querido. Saber que também pecaste talvez me prenda ainda mais a ti. Seja como for, amo-te. Escrevi e disse coisas que o meu orgulho nunca mais permitirá que eu volte a dizer a uma mulher.
Minha Nora adorada, sinto uma ofegante impaciência pela resposta que darás às minhas cartas imundas que te escrevi. Escrevo-te de rosto descoberto por sentir que posso agora manter a minha palavra perante ti.
Não te zangues, querida, querida Nora, minha florzinha silvestre das sebes. Amo o teu corpo, anseio por ele, sonho com ele.
Falai-me, ó queridos lábios que beijei em lágrimas. Se te ofenderam estas grosserias que escrevi, chama-me à razão com chicotadas, como já antes fizeste. Deus me ajude!
Amo-te, Nora, e parece-me que isto faz parte do meu amor. Perdoa-me! Perdoa-me!

9.10.08

Think Big. And big (er) and big (eeer)...



"Pequenas coisas afectam pequenas mentes..."

1.10.08



6.9.08

Sussurra-me Indecências...



As orelhas femininas nunca foram bem tratadas. Sempre foram ou ignoradas ou mutiladas. O pó e a tinta que com tanto carinho têm sido aplicados no rosto da mulher passou-lhes ao lado. Enquanto o rosto tão meticulosamente decorado assumiu o papel principal, as orelhas foram ignoradas, muitas vezes ocultas debaixo do cabelo da mulher. Quando eventualmente surgem do seu esconderijo, apenas têm servido para ser furadas, a fim de criar um apoio para as jóias. (...)

A função principal do ouvido externo continua a ser a de colector de sons, uma corneta acústica de carne e cartilagem. (...)

Embora as nossas orelhas pareçam rígidas nos lados da cebeça, ainda mantêm uma sombra do movimento de que em tempos gozaram.(...) Os animais com grandes orelhas móveis espalmam-nas quase sempre quando lutam, numa tentativa de as manter longe do perigo. Nós, humanos, ainda hoje o fazemos automaticamente quando esticamos a pele da cabeça em momentos de pânico, mesmo que as orelhas já estejam espalmadas na sua posição normal de repouso.(...)

Uma função menor das nossas orelhas é o controlo de temperatura. (...)

Finalmente, as nossas orelhas parecem ter adquirido uma nova função erótica com o desenvolvimento de lóbulos macios e carnudos. Estão ausentes dos nossos parentes mais próximos e parecem ser uma característica exclusivamente humana, surgida como parte da nossa sexualidade cada vez mais desenvolvida. Os primeiros anatomistas consideraram-nos inúteis: «uma nova característica sem qualquer objectivo aparente, a não ser que sejam perfurados para o transporte de ornamentos». Todavia, observações recentes do comportamento sexual revelaram que durante a excitação intensa, os lóbulos das orelhas incham, aumentando de volume com o fluxo de sangue. Isto deixa-os bastante sensíveis ao toque. O acariciar, o sugar e o beijar dos lóbulos durante o acto de amor serve de estímulo sexual para muitas mulheres. Em casos raros, segundo Kinsey e os seus colegas do Institute for Sex Research, no Indiana, uma mulher pode até chegar ao orgasmo através da estimulação das orelhas.(...)

À orelha já foram atribuídos vários papéis simbólicos. Uma vez que se trata de uma aba de pele em redor de um orifício, foi inevitavelmente vista como símbolo dos órgãos genitais femininos. Na Jugoslávia, por exemplo, uma das expressões de calão para vulva é «a orelha entre as pernas». Em certas culturas, empregou-se a mutilação das orelhas como substituto da circuncisão feminina. Em algumas partes do Oriente, as jovens na puberdade são forçadas a submeter-se a um ritual de iniciação no qual abrem buracos nas suas orelhas. No Antigo Egipto, o castigo de uma adúltera era a remoção das orelhas.
Como as orelhas eram vistas como órgãos genitais femininos, não surpreende que certos indivíduos excepcionais tenham nascido pelo ouvido. Diz-se que Karna, filho do deus hindu do sol, Surya, emergiu deste órgão(...). Em certas lendas, também se diz que Buda nasceu dã orelha da mãe.
Nos trabalhos satíricos de François Rabelais, publicados em 1653, Gargântua também veio ao mundo desta forma invulgar.(...)

Uma forma completamente diferente de simbolismo da orelha vê este órgão como representando a sabedoria. Isto tem sido usado como desculpa para puxar as orelhas das crianças que se comportam mal, sendo a ideia a de que a activação da orelha vai despertar a inteligência que aí se encontra dormente.
Algumas destas estranhas superstições levariam ao antigo costume de perfurar as orelhas para a utilização de brincos.(...) Hoje em dia, a maior parte das mulheres que tem as orelhas furadas possui objectivos meramente estéticos, sem noção do que em tempos tal acção significava. Nos tempos antigos, havia várias explicações:
Uma vez que o Diabo e outros espíritos malignos estão sempre a tentar entrar no corpo humano para o possuir, é necessário proteger todos os orifícios através dos quais eles poderão ter acesso. Pensava-se que o uso de amuletos nas orelhas era a melhor forma de evitar uma cabeça cheia de demónios.(...)

Em algumas tribos, existe um festival especial associado ao ritual da perfuração das jovens. Em certas culturas, os ornamentos pesados que pendem dos lóbulos esticados de uma mulher casada só podem ser retirados depois da morte do marido. São então removidos na cerimónia do funeral, como sinal de luto.(...)

Todavia, para a grande maioria das mulheres, hoje em dia as orelhas são decoradas de forma simples, com brincos facilmente removíveis, presos através de um único buraco pequeno, ou simplesmente através de mola. Ao contrário dos brincos tribais, não são usados continuamente, sendo com frequência trocados dia após dia, para que condigam com o que está a ser vestido no momento


Desmond Morris, a mulher nua - um estudo do corpo feminino

2.9.08


30.8.08

É a sensação do toque.

- O quê?
.
Numa cidade a sério,
as pessoas caminham,
roçam umas nas outras,
trocam encontrões.
Em (...), ninguém se toca.
Estamos sempre atrás de metal e vidro.
A falta desse toque é tão dolorosa,
que nos espetamos contra os outros só para sentir qualquer coisa.
.
- Vocês estão bem?
.
- Acho que ele bateu com a cabeça.

in crash

2.6.08

"O teu beijo é como o rock"

Música de Alcova

Qual é o ritmo certo para um encontro entre lençóis? À parte a canção nostálgica "da primeira vez", gostaria de aconselhar algumas alternativas. Na Inglaterra saiu o primeiro CD de música clássica de alcova. O título não deixa dúvidas: chama-se Orgasmos Clássicos e concentra em 70 minutos Orff, Ravel, Wagner, Puccini e Tchaikowsky. Lê-se na sua apresentação que os momentos mais poderosos e irresistíveis destas composições podem provocar sensações de proporções épicas. Experimentar para crer: algumas pesquisas de laboratório parecem confirmar que, de facto, a música clássica tem um efeito mais positivo que o jazz e o rock.
As teorias a este respeito são as mais diversas. Um fisiólogo do movimento, o romano Maurizio Ricciardi, que é também perito em musicoterapia, defende que a coluna de som perfeita compreende os ritmos lentos dos anos sessenta, a atmosfera New Age, o jazz soft, mais adaptados, segundo ele, a influenciar o cérebro e a predispô-lo aos ritmos do eros. Que posso dizer? Os meus gostos são clássicos e continuo a preferir o tórrido Bolero de Ravel.

Pasini, Willy, O amor e o tempo, 1996

21.5.08




Adão

Segunda-feira.
Esta nova criatura de cabelo longo é um valente empecilho. Anda sempre à minha volta e segue-me para todo o lado. Não gosto disto; não estou habituado a ter companhia. Preferia que ficasse com os outros animais.

Terça-feira.
Não posso nunca dar nome a nada. O novo ser dá nome a tudo o que aparece antes de eu poder esboçar um protesto. E o pretexto é sempre o mesmo: parece ser aquilo. Por exemplo um dodo, diz que, logo que se avista um, percebe-se que «parece um dodo». Vai ter de passar a chamar-se assim, sem dúvida. Desgasta-me tentar discutir sobre isso e nem vale a pena, de qualquer maneira. Dodo! Parece-se tanto com um dodo como eu!

Segunda-feira.
O novo ser diz que se chama Eva. Tudo bem.(...)diz que não é um ser, mas uma Ela. Dúvido, mas tanto me faz. O que Ela seja não me faria diferença se Ela se metesse na sua vida e não falasse.

Eva

Domingo.
Durante toda a semana segui-o e tentei travar conhecimento. Tive de ser eu a falar porque ele é tímido, mas isso não me chateia. Ele parecia contente por me ter por ali e eu fartei-me de usar o socializante "nós" porque isso parecia deixá-lo orgulhoso por estar incluído em alguma coisa.

Segunda–feira.
Hoje de manhã disse-lhe o meu nome. E estava com esperanças que lhe interessasse. Mas ele não ligou nenhuma. É estranho. Se fosse ele a dizer-me o seu nome eu ter-me-ia interessado. Para os meus ouvidos teria sido o mais doce som que eu jamais ouvira.(...)

Adão

Ela diz que a serpente a aconselha a provar o fruto da árvore e diz que daí vai resultar uma grande e bela e nobre educação. Eu disse-lhe que também haveria outra consequência: que isso introduziria a Morte no mundo. Isto foi um erro, mais valia ter ficado calado. Só serviu para lhe dar uma ideia. Ela podia salvar o bútio doente e arranjar carne fresca para os desalentados leões e tigres. Pelo meu lado, aconselhei-a a manter-se afastada da árvore. Ela disse que não. Acho que vai haver problemas. Vou emigrar.(…)


Onde quer que ela estivesse era o Éden.



Mark Twain, Excertos dos Diários de Adão e Eva

22.4.08




Neste romance surpreendente e admirável, que revela ao leitor português uma grande escritora mexicana, toda a trama narrativa roda em torno da cozinha e de um certo número de elementos culinários. Cada capítulo abre uma receita fora do comum (mas ao mesmo tempo perfeitamente realizável), a pretexto e em volta da qual não apenas se juntam os comensais, mas também se "cozem" e "temperam" amores e desamores, risos e prantos, e se celebra o triunfo da alegria e da vida sobre a tristeza e a morte. Através dos amores proibidos de Tita e Pedro, Laura Esquivel Retrata-nos o México rural dos princípios deste século e tece um hino inesquecível ao prazer dos sentidos e à liberdade criativa da mulher. Enorme sucesso editorial traduzido em numerosos países e adaptado ao cinema.

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