19.12.08

James Joyce, Querida Nora!

3 de Dezembro (1909)

Minha adorada menina de Colégio de freiras, há uma estrela qualquer que está, neste momento, demasiado perto da terra, pois ainda me encontro em plena crise de desejo animal. Muitas vezes parei hoje na rua, com uma exclamação, sempre que pensava nas cartas que te escrevi nas noites de ontem e anteontem. Lidas à luz crua do dia, devem parecer horríveis. Talvez te enfadasse a sua grosseria. Sei que és muito mais delicada de natureza que o teu extraordinário amante apesar de teres sido tu, tu própria, rapariguinha aluada, a primeira a escrever dizendo que estavas ansiosa por uma foda minha, não obstante eu julgue que a porca e selvagem obscenidade da minha resposta ultrapassou todos os limites do pudor. Esta manhã, quando recebi a tua carta registada e vi quão preocupada te sentes com o teu Jim indigno, senti vergonha do que escrevi. A noite, uma secreta e pecaminosa noite, voltou agora a descer sobre o mundo, e encontro-me de novo só e a escrever-te em cima da mesa. Não peças que vá deitar-me, querida. Deixa-me escrever-te, querida.
Como sabes nunca emprego palavras obscenas quando falo, minha bem-amada. Nunca me ouviste, pois não, pronunciar uma palavra imprópria perante terceiros. Dificilmente sorrio quando à minha frente outros homens contam histórias porcas ou libertinas. Parece no entanto, que me transformaste em animal. Tu própria, rapariga perversa e desavergonhada, é que começaste por abrir caminho. Em Ringsend, já lá via muito tempo, não fui eu quem começou a apalpar. Foste tu quem desceu, desceu a mão sorrateira ao interior das minhas calças e afastou suavemente a camisa, e com longos e titilantes dedos me tocou na p*ça, e aos poucos agarrou nela, grossa e tesa como estava, lentamente a masturbou até eu me vir nos teus dedos, tu debruçada, durante esse tempo todo, sobre mim e a fixar-me com olhos calmos de Santa. Também foram os teus lábios os primeiros a pronunciar uma palavra obscena. Lembro-me bem daquela noite, em Pola, quando fomos para a cama. E que uma noite, já farta de estares deitada por baixo de um homem, tiraste violentamente a camisa e puseste-te em cima de mim para me cavalgares despida. Cravaste a minha p*ça na c*na e começaste a montar-me para cima e para baixo. Talvez eu não estivesse com tesão bastante para o teu gosto, pois lembro-me de estares inclinada sobre o meu rosto e com voz meiga murmurares: “Vá, amor, fode! Vá, amor, fode!”
Querida Nora, tenho andado todo o dia morto por te fazer uma ou duas perguntas. Permite, querida, já que eu te disse absolutamente tudo quanto fiz, que possa por minha vez interrogar-te. Ponho-me a pensar se quererás responder. Quando aquela pessoa, cujo coração eu desejo fortemente parar com um tiro de revólver, meteu debaixo das tuas fraldas a mão ou as mãos, só te fez festas por fora ou meteu o dedo, ou os dedos, dentro de ti? Se assim foi, chegou ao ponto de te tocar no pequeno grelo que tens no fundo da c*na? Tocou-te por detrás? Acariciou-te o tempo suficiente para te vires? Pediu-te para lhe tocares, e fizeste-o? Se não tocaste, veio-se encostado a ti? E sentiste que ele se estava a vir?
Uma outra pergunta, Nora. Sei que fui o primeiro a pôr-me em ti, mas nenhum outro te masturbou? Aquele rapaz de quem gostavas muito nunca o fez? Diz-me, Nora, a verdade por verdade, franqueza por franqueza. À noite, quando te encontravas com ele no escuro, os teus dedos nunca, nunca lhe desabotoaram as calças nem se meteram nelas, sorrateiros como um rato? Diz-me com sinceridade, minha querida, nunca lhe fizeste uma pívia, a ele ou a outro? Até me teres desabotoado nunca, nunca, nunca tinhas sentido nos dedos a p*ça de um homem ou de um rapaz? Se não é coisa que te ofenda, não receies dizer-me a verdade. Adorada, adorada, esta noite sinto uma tão selvagem ânsia do teu corpo, que me atiraria a ti de desejo se estivesses aqui ao meu lado, e mesmo que fossem os teus lábios a dizer-me que antes de mim já tinhas sido fodida por metade desses ruivos estúpidos do Condado de Galvlay.

Deus Todo poderoso! Que linguagem esta, quando escrevo à minha orgulhosa rainha de olhos azuis! Irá ela recusar-se a responder às minhas grosseiras e insultuosas perguntas? Ao escrever assim, sei que corro um grande risco, mas se ela me tiver realmente amor sentirá que ando louco de luxúria e será necessário dizer-me tudo.
Responde-me, coração querido. Saber que também pecaste talvez me prenda ainda mais a ti. Seja como for, amo-te. Escrevi e disse coisas que o meu orgulho nunca mais permitirá que eu volte a dizer a uma mulher.
Minha Nora adorada, sinto uma ofegante impaciência pela resposta que darás às minhas cartas imundas que te escrevi. Escrevo-te de rosto descoberto por sentir que posso agora manter a minha palavra perante ti.
Não te zangues, querida, querida Nora, minha florzinha silvestre das sebes. Amo o teu corpo, anseio por ele, sonho com ele.
Falai-me, ó queridos lábios que beijei em lágrimas. Se te ofenderam estas grosserias que escrevi, chama-me à razão com chicotadas, como já antes fizeste. Deus me ajude!
Amo-te, Nora, e parece-me que isto faz parte do meu amor. Perdoa-me! Perdoa-me!

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