3.6.09



"Pelas leituras que fiz, necessariamente breves, pois não são a Lua e as suas mentiras o meu mester, fiquei a saber que ninguém tem certezas sobre o porquê d’A ilusão da Lua. Há teorias, mas nenhuma delas nos avança mais que o óbvio: nós funcionamos todos mal. Que eu não funciono bem é uma certeza que não carecia de demonstração adicional, mas que todo o próximo transporta um defeito de fabrico tão pífio, isso escapava-me. E, estranhamente, não me consola. Mas não entremos em pormenores desnecessários.

Contudo, nada há n’A ilusão da Lua que deva aparecer como surpreendente aos mais cismáticos. Esta revelação pode ser, até, a peça que faltava na construção de um sentido satisfatório para outras disfunções bem conhecidas, outras partidas da mente de que a Lua da ilusão tantas vezes é padroeira: a paixão, o «amor» (é assim que se escreve?), a vontade de continuar. A este propósito, recordo aquele quente anoitecer no banco de trás do meu falecido Simca, o vosso demiurgo o tenha na sua garagem direita, resguardado da cacimba celestial que tão mal lhe faria às embaladeiras. Dos confins da planície, para lá das últimas fagáceas, nascia uma Lua enorme de Verão, precisamente fatiada pelas resistências do desembaciador do vidro traseiro. Essa Lua gigantesca, que a dada altura se fez a única luz nos nossos corpos e o tempero excessivo das nossas libidos, era, enfim, tão mentira quanto o que acontecia dentro do automóvel. De verdade eram, somente, a napa esfolada e descosida e o lamento estertoroso dos amortecedores."

Eduardo in agrafo

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