De uma maneira geral, o alicerce da família tradicional não era o sentimento; foi preciso esperar que a subjectividade moderna se formasse e que a noção de indivíduo livre se tornasse uma realidade sociológica concreta para que a afinidade electiva com outrem, e já não a tradição imposta, constituísse um novo modo de organização familiar. Foi somente a partir desta base individualista que se começou a sentir o luto por um marido, por uma esposa, por um filho ou por uma filha, como uma “dor no peito”, o que permitia encontrar dentro de si os recursos para eventuais sacrifícios. (...)
Contrariamente a uma ideia muitas vezes aventada pelos pensadores tradicionalistas, a família não desapareceu com o Antigo Regime: é mesmo uma das raras instituições que perdurou para além da Revolução, mantendo-se hoje em dia mais viva e provavelmente mais estável que nunca, apesar do elevado número de divórcios. Esta permanência não deve no entanto escamotear a profundidade das alterações, e até mesmo das subversões, que surgiram desde o século XVII. A mais importante reside indubitavelmente na passagem de um casamento por “interesse” – com finalidades económicas e a maior parte das vezes organizado pelos pais ou, através deles, pela comunidade da aldeia – a um casamento de amor, escolhido livremente pelos próprios intervenientes. (...)
Para nós, herdeiros dos românticos, o princípio da união sentimental parece ser quase a regra. Na nossa representação, o casal perdeu quase todo o significado que tinha ainda na época clássica: garantir a perenidade da linhagem e da propriedade familiar através do encargo, partilhado entre esposos, das necessidades de produção e reprodução. Se hoje ridicularizamos facilmente a própria ideia de um “casamento por dinheiro”, é porque evidentemente esquecemos os objectivos de tal associação. (...)
Actualmente, um dos factos mais evidentes, e talvez mesmo o único que consegue uma tal unanimidade, é o de que a vida em comum é uma questão de sentimento e de escolha, tendo a ver com decisões individuais privadas, quer dizer, tanto quanto possível subtraídas ao domínio da sociedade global. É esta mesma visão «sentimental» das relações humanas que por vezes põe em causa o casamento, mesmo que seja por amor(...)
Emancipados dos laços sagrados que as tradições religiosas e comunitárias impunham, os indivíduos têm de defrontar agora uma situação inédita nas relações humanas: o frente-a-frente, a dualidade, por assim dizer solitária, de um casal doravante entregue a si mesmo, liberto do peso mas também do auxílio do mundo vertical da tradição. É um casal humano, demasiado humano talvez, que em breve passará pela experiência da relação íntima que une a liberdade absoluta à fragilização da felicidade.(...)
Os sentimentos inspirados pela paixão poderão estabelecer relações duráveis? Não serão por natureza tão instáveis que não permitem a edificação de algo sólido? Já se pressentia isso desde Platão, e hoje em dia nada o desmente. Contudo, o mundo moderno pensa que a vida sentimental não vale a pena ser vivida fora do estado de enamoramento. É este o paradoxo do casamento por amor, pois desde a origem parece trazer consigo, quase por essência, a sua dissolução. Se é apenas o sentimento que une os seres, também pode desuni-los. Quanto mais o casamento se liberta dos seus motivos tradicionais, económicos ou familiares, para se tornar num assunto de escolha individual e de afinidade electiva, mais depara com a questão tipicamente moderna da “usura do desjo”. Como se tivesse de arrastar todas as uniões na sua queda, dado que o estado de enamoramento é efémero... (...)
"não é o pecado da carne em si mesmo que expulsa Adão e Eva do Paraíso, mas o facto de se separarem de uma transcendência que permitia a sua ligação. A perda de um terceiro termo, o divino, deixa-os entregues um ao outro, num frente-a-frente que mais cedo ou mais tarde está condenado à destruição.”
Luc Ferry, O Homem-Deus
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