
As orelhas femininas nunca foram bem tratadas. Sempre foram ou ignoradas ou mutiladas. O pó e a tinta que com tanto carinho têm sido aplicados no rosto da mulher passou-lhes ao lado. Enquanto o rosto tão meticulosamente decorado assumiu o papel principal, as orelhas foram ignoradas, muitas vezes ocultas debaixo do cabelo da mulher. Quando eventualmente surgem do seu esconderijo, apenas têm servido para ser furadas, a fim de criar um apoio para as jóias. (...)
A função principal do ouvido externo continua a ser a de colector de sons, uma corneta acústica de carne e cartilagem. (...)
Embora as nossas orelhas pareçam rígidas nos lados da cebeça, ainda mantêm uma sombra do movimento de que em tempos gozaram.(...) Os animais com grandes orelhas móveis espalmam-nas quase sempre quando lutam, numa tentativa de as manter longe do perigo. Nós, humanos, ainda hoje o fazemos automaticamente quando esticamos a pele da cabeça em momentos de pânico, mesmo que as orelhas já estejam espalmadas na sua posição normal de repouso.(...)
Uma função menor das nossas orelhas é o controlo de temperatura. (...)
Finalmente, as nossas orelhas parecem ter adquirido uma nova função erótica com o desenvolvimento de lóbulos macios e carnudos. Estão ausentes dos nossos parentes mais próximos e parecem ser uma característica exclusivamente humana, surgida como parte da nossa sexualidade cada vez mais desenvolvida. Os primeiros anatomistas consideraram-nos inúteis: «uma nova característica sem qualquer objectivo aparente, a não ser que sejam perfurados para o transporte de ornamentos». Todavia, observações recentes do comportamento sexual revelaram que durante a excitação intensa, os lóbulos das orelhas incham, aumentando de volume com o fluxo de sangue. Isto deixa-os bastante sensíveis ao toque. O acariciar, o sugar e o beijar dos lóbulos durante o acto de amor serve de estímulo sexual para muitas mulheres. Em casos raros, segundo Kinsey e os seus colegas do Institute for Sex Research, no Indiana, uma mulher pode até chegar ao orgasmo através da estimulação das orelhas.(...)
À orelha já foram atribuídos vários papéis simbólicos. Uma vez que se trata de uma aba de pele em redor de um orifício, foi inevitavelmente vista como símbolo dos órgãos genitais femininos. Na Jugoslávia, por exemplo, uma das expressões de calão para vulva é «a orelha entre as pernas». Em certas culturas, empregou-se a mutilação das orelhas como substituto da circuncisão feminina. Em algumas partes do Oriente, as jovens na puberdade são forçadas a submeter-se a um ritual de iniciação no qual abrem buracos nas suas orelhas. No Antigo Egipto, o castigo de uma adúltera era a remoção das orelhas.
Como as orelhas eram vistas como órgãos genitais femininos, não surpreende que certos indivíduos excepcionais tenham nascido pelo ouvido. Diz-se que Karna, filho do deus hindu do sol, Surya, emergiu deste órgão(...). Em certas lendas, também se diz que Buda nasceu dã orelha da mãe.
Nos trabalhos satíricos de François Rabelais, publicados em 1653, Gargântua também veio ao mundo desta forma invulgar.(...)
Uma forma completamente diferente de simbolismo da orelha vê este órgão como representando a sabedoria. Isto tem sido usado como desculpa para puxar as orelhas das crianças que se comportam mal, sendo a ideia a de que a activação da orelha vai despertar a inteligência que aí se encontra dormente.
Algumas destas estranhas superstições levariam ao antigo costume de perfurar as orelhas para a utilização de brincos.(...) Hoje em dia, a maior parte das mulheres que tem as orelhas furadas possui objectivos meramente estéticos, sem noção do que em tempos tal acção significava. Nos tempos antigos, havia várias explicações:
Uma vez que o Diabo e outros espíritos malignos estão sempre a tentar entrar no corpo humano para o possuir, é necessário proteger todos os orifícios através dos quais eles poderão ter acesso. Pensava-se que o uso de amuletos nas orelhas era a melhor forma de evitar uma cabeça cheia de demónios.(...)
Em algumas tribos, existe um festival especial associado ao ritual da perfuração das jovens. Em certas culturas, os ornamentos pesados que pendem dos lóbulos esticados de uma mulher casada só podem ser retirados depois da morte do marido. São então removidos na cerimónia do funeral, como sinal de luto.(...)
Todavia, para a grande maioria das mulheres, hoje em dia as orelhas são decoradas de forma simples, com brincos facilmente removíveis, presos através de um único buraco pequeno, ou simplesmente através de mola. Ao contrário dos brincos tribais, não são usados continuamente, sendo com frequência trocados dia após dia, para que condigam com o que está a ser vestido no momento
6.9.08
Sussurra-me Indecências...
Desmond Morris, a mulher nua - um estudo do corpo feminino
Etiquetas: As Escolhas das Q.U., HistoriSexidade, Linguagem Universal
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