do "PANSEXUALIMO", DE FREUD
até “A RELAÇÃO SEXUAL NÃO EXISTE”, DE LACAN
-Ai os filósofos, os filósofos...
Há no entanto alguns aspectos desta cena que, embora geralmente menosprezados, são fundamentais para o efeito pretendido. Em primeiro lugar, não devemos esquecer o facto mais do que óbvio de que o plano panorâmico sinóptico que traduz o mistério do ágape ocorre enquanto Julie se encontra em pleno acto sexual – regressamos aqui à noção lacaniana de que o amor supre a inexistência de relação sexual. Geralmente, considera-se que o suposto “pansexualismo” de Freud significa que “independentemente do que façamos ou digamos, estamos sempre, em última análise, a pensar naquilo”, ou seja, a referência ao acto sexual é o horizonte último do significado. (*) É preciso afirmar, contrariando este lugar-comum, que a revolução freudiana consiste exactamente no oposto: foi o universo ideológico pré-moderno que “sexualizou” todo o universo, concebendo a estrutura básica do cosmo como a tensão entre os “princípios” masculino e feminino (yin e yang), a tensão que se repete em níveis diferentes e cada vez mais elevados (luz e escuridão, céu e Terra), de tal modo que a própria realidade aparece como resultado da “copulação” cósmica destes dois princípios. O que Freud consuma aqui é precisamente a dessexualização radical do universo. A psicanálise extrai as consequências últimas do “desencantamento” moderno do universo, a noção do universo como uma multiplicidade contingente e desprovida de significado. A noção freudiana de fantasia aponta precisamente nesta direcção: o problema não é o que estamos a pensar quando estamos a fazer outras coisas quaisquer, mas o que estamos a pensar (a fantasiar) quando efectivamente estamos a “fazer isso”. A ideia lacaniana de que a “a relação sexual não existe” significa, em última análise, que, enquanto estamos a “fazer isso”, quando estamos empenhados no acto sexual em si mesmo, precisamos de um suplemento fantasmático, temos de pensar noutra coisa qualquer, de fantasiar com ela. Não podemos simplesmente “mergulhar totalmente no prazer imediato do que estamos a fazer”. De outro modo, perde-se a tensão do prazer. Esta “outra coisa qualquer” que sustenta o próprio acto é a matéria da fantasia, geralmente qualquer pormenor “perverso” (desde um aspecto característico do corpo do/da amante, ou a peculiaridade do lugar em que estamos a fazer “isso”, até a um olhar imaginário que nos estaria a observar).
(*) Na medida em que aceitarmos esta noção de relação sexual como a referência absoluta, somos tentados a rescrever toda a história da filosofia moderna nos seguintes termos:
- Descartes: “Fodo, logo existo”, isto é, só na actividade sexual intensa sinto a plenitude do meu ser (a resposta “descentradora” de Lacan a isto teria sido: “Fodo onde não existo, e não existo onde fodo”, ou seja, não sou eu quem fode, mas “isso fode” em mim);
- Espinosa: Dentro do Absoluto enquanto Foda (coitus sive natura), devemos distinguir, no mesmo sentido da distinção entre natura naturans e natura naturata, entre a penetração activa e o objecto fodido (há aqueles que fodem e os que são fodidos);
- Hume introduz aqui a dúvida empirista: como sabemos se a foda, enquanto relação, existe? Só existem objectos cujos movimentos parecem coordenados.
- Resposta kantiana a esta crise: “as condições da possibilidade de foder são ao mesmo tempo as condições da possibilidade dos objectos [da] foda”;
- Fichte radicaliza esta revolução kantiana: foder é uma actividade incondicional que se postula a si própria e que se divide em fodedor e objecto fodido, ou seja, é o próprio foder que pressupõe o seu objecto, o fodido;
- Hegel: “é crucial conceber o Foder não só como substância (o impulso substancial que nos subjuga), mas também como sujeito (como actividade reflexiva inserida no contexto do significado espiritual)”;
- Marx: devemos regressar ao foder real e rejeitar a filosofice masturbatória idealista, ou seja, nos termos literais em que o expressou na Ideologia Alemã, a vida real está para a filosofia, assim como o sexo real está para a masturbação;
- Nietzsche: a Vontade é, na sua expressão mais radical, a Vontade de Foder, que culmina no Eterno Retorno do “quero mais”, de uma foda que prossegue indefinidamente;
- Heidegger: do mesmo modo que a essência da tecnologia não é nada “tecnológica”, a essência de foder não tem nada a ver com a foda enquanto simples actividade ôntica; ou melhor, “a essência do foder é o foder da própria Essência”, isto é, não somos apenas nós, humanos, que fodemos a nossa compreensão da Essência, é a Essência que já está em si mesma fodida (inconsistente, retraída, errante);
- e, finalmente, a intuição de como a própria Essência está fodida, leva-nos à expressão de Lacan “a relação sexual não existe”.
5.1.09
Slavoj Zizek, Lacrimae Rerum
(referindo-se ao filme Bleu, da triologia Bleu-Blanc-Rouge, de Kiéslowski)
Etiquetas: As Escolhas das Q.U., cinemateca
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3 comentários:
foda........, gostava mesmo de ter sido eu a fazer este post!, mas já que não apresentei esta pérola e tu sabes que ce lui qui a dit..., está dito! não obliteremos, portanto, que lacan, enquanto estruturalista não poderia deixar de estruturar!
temos de notar que ele equaciona o amor não necessariamente espartilhado da... foda, logo, temos de nos organizar, ou melhor, estruturar. não tendo concebido a foda sem amor lacan acaba por fazer vassalagem ao segundo preconizando, inclusivé, a possibilidade de o amor suprimir a necessidade da foda.
ah!, os filósofos! esses nefelibátos quase incorpóreos (ehehe) pairando sobre o Mundo das Ideias - e claro, as ideias tb n têm sexo!, depois concluem estas coisas...
n sei se é saudades do blog ou do lacan... ou saudades do lacan e d'o sexo... ou do sexo d'a amélie... merda! corrente de ideias nostálgica!!!
bgadinho, viu quida!começar o ano a olhar pra trás...:(
Cara Miranda...
podes continuar a olhar para a frente, fazendo o que tens para fazer para trás...
Não é nostalgia, é...bom! Novas perspectivas! O futuro está atrás de ti!
(Era o que mais faltava agora termos que nos abster de todas as referências anteriormente apreendidas, para conseguirmos seguir em frente...)
Bom anuo de 2009*
ps-tratando-se de quecas urbanas...não há aqui relações exclusivas...lá porque dei uma queca com o lacan não quer dizer que mais ninguém possa dar... ou será que alguém vai tratar desse assusnto, até agora tabu nas quecas, que é o CIÙME?...mais SWING babe!
ps2-julie...não amelie.
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