“O sonho comanda a Vida”...
e a Fantasia... comanda o Sexo ?

Um dos preconceitos antifeministas diz respeito à suposta afirmação de Lacan de que, uma vez que o desejo e a Lei são as duas faces da mesma moeda, de tal modo que a Lei simbólica, longe de impedir o desejo, faz parte dele, só um homem – dado que inteiramente integrado na Lei simbólica – pode desejar plenamente, enquanto a mulher está condenada ao “desejo de desejar” histérico. Porém, somos tentados a complementar esta tese com o seu contrário quase simétrico respeitante à fantasia: só uma mulher pode fantasiar plenamente, enquanto o homem está condenado a um “fantasiar da fantasia”, em última análise fútil. Recorde-se De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick: só a fantasia de Nicole Kidman é verdadeiramente uma fantasia, enquanto a de Tom Cruise é uma falsificação reflexiva, uma tentativa desesperada de responder ao enigma desta fantasia. Que cena/encontro fantasiado a marcou tão profundamente? O que Tom Cruise faz na sua noite de aventura é uma espécie de deambulação em busca de fantasias. Cada situação em que se encontra pode ser interpretada como uma fantasia realizada – primeiro a fantasia de ser o objecto da paixão da filha do seu doente; depois, a fantasia de encontrar uma espécie de prostituta que nem sequer pretende receber dinheiro; a seguir, o encontro com o estranho proprietário sérvio (?) da loja de aluguer de máscaras, que é um proxeneta da sua jovem filha; e finalmente a grande orgia na mansão dos subúrbios...Isto explica o carácter estranhamente contido, rígido, e mesmo impotente, da cena da orgia, que constitui o culminar da aventura. O que muitos críticos menosprezaram, considerando a descrição da orgia como ridiculamente asséptica e ultrapassada, funciona a seu favor, expressando a paralisia da “capacidade de fantasiar” do herói. Isto explica igualmente a eficácia do plano de Nicole Kidman a dormir, com a máscara a seu lado, sobre a almofada do marido: nesta versão de “a morte e a donzela”, ela efectivamente “rouba os sonhos dele”, ao unir-se com esta máscara, que representa aqui o seu duplo espectral fantasmático. E, finalmente, isto justifica também plenamente a conclusão aparentemente vulgar do filme, quando ele, após confessar a sua aventura nocturna a Nicole Kidman, ou seja, depois de se confrontarem ambos com o excesso do seu fantasiar, esta, depois de se assegurar de que agora estão bem acordados, de regresso ao dia, e de que, para sempre, ou pelo menos por muito tempo ficarão ali, ao abrigo das fantasias, diz-lhe que têm de fazer uma coisa, logo que possível. “O quê?”, pergunta ele, e ela responde “Foder”. Fim do filme, passa o genérico final. Nunca o cinema mostrou tão abruptamente a natureza da passage à l’acte como a falsa saída, como o modo de evitar enfrentar o horror do inferno fantasmático. A passagem ao acto, em vez de lhes proporcionar uma satisfação física real que tornaria supérfluas as fantasias vazias, é apresentada como um subterfúgio, como uma medida preventiva desesperada destinada a manterem à distância o inferno espectral das fantasias. É como se a mensagem que ela veicula fosse a seguinte: vamos foder o mais rapidamente possível para sufocar as fantasias que proliferam, antes que elas nos dominem outra vez...
O dito arguto de Lacan de que o despertar para a realidade é uma fuga ao real encontrado no sonho aplica-se particularmente bem ao acto sexual: não sonhamos com foder quando não somos capazes de o fazer. Fodemos para iludir e sufocar o excesso do sonho que, de outro modo, nos submergiria.
5.1.09
Fantasiar...
Slavoj Zizek, Lacrimae Rerum
Etiquetas: As Escolhas das Q.U., cinemateca
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