Jean Paul et Simone

SARTRE, O Ser e o Nada
I – A Primeira Atitude Para Com o Outro: O Amor, A Linguagem, O Masoquismo
Tudo o que vale para mim vale para o outro. Enquanto tento livrar-me do domínio do outro, o outro tenta livrar-se do meu; enquanto procuro subjugar o outro, o outro procura-me subjugar. Não se trata aqui, de modo algum, de relações unilaterais com um objecto-Em-si, mas sim de relações recíprocas e moventes. As descrições que se seguem devem ser encaradas, portanto, pela perspectiva do conflito. O conflito é o sentido originário do ser-Para-outro.
Se partimos da revelação inicial do outro como olhar, devemos reconhecer que experimentamos nosso inapreensivel ser-Para-outro na forma de uma posse. Sou possuído pelo outro; o olhar do outro modela meu corpo em sua nudez, causa seu nascer, o esculpe, o produz como é, o vê como jamais o verei. O outro detém um segredo: o segredo do que sou. Faz-me ser e, por isso mesmo, possui-me, e esta possessão nada mais é que a consciência de meu possuir. E eu, no reconhecimento da minha objectividade, tenho a experiência de que ele detém esta consciência. A título de consciência, o outro é para mim aquele que roubou meu ser e, ao mesmo tempo, aquele que faz com que “haja” um ser, que é o meu. Assim, tenho a compreensão desta estrutura ontológica; sou responsável por meu ser-Para-outro, mas não seu fundamento; meu ser-Para-outro aparece-me, portanto, em forma de algo dado e contingente, pelo qual, todavia, sou responsável, e o outro fundamenta meu ser na medida que este ser é na forma do “há”; mas o outro não é responsável por ele, embora o fundamente em completa liberdade, na e por sua livre transcendência. Portanto, na medida que me desvelo a mim mesmo como responsável por meu ser, reivindico este ser que sou; ou seja, quero recuperá-lo, ou, em termos mais exactos, sou projecto de recuperação de meu ser. Quero estender a mão para apoderar-me deste ser que é-me apresentado como meu ser, mas à distância, como a comida de Tântalo, e fundamentá-lo por minha própria liberdade. Porque, se em certo sentido meu ser-objecto é insuportável contingência e pura “posse” de mim por um outro, em outro sentido este ser é como a indicação daquilo que eu precisaria recuperar e fundamentar para ser fundamento de mim mesmo. Mas isso só é concebível caso eu assimile a liberdade do outro. Assim, meu projecto de recuperação de mim é fundamentalmente projecto de reabsorção do outro. Todavia, tal projecto deve deixar intacta a natureza do outro. Significa que: 1º) Não deixo por isso de afirmar o outro, ou seja, de negar que eu seja o outro: sendo fundamento de meu ser, o outro não poderia diluir-se em mim sem que meu ser-Para-outro desaparecesse. Logo, se projecto realizar a unidade com o outro, significa que projecto assimilar a alteridade do outro enquanto tal, como minha possibilidade própria. Com efeito, trata-se, para mim, de fazer-me ser adquirindo a possibilidade de adoptar sobre mim o ponto de vista do outro. Mas não se trata de adquirir uma pura faculdade abstracta de conhecimento. Não é da pura categoria do outro que projecto apropriar-me: tal categoria não é concebida, nem mesmo concebível. Mas, por ocasião da experiência concreta, padecida e ressentida do outro, é este outro concreto, como realidade absoluta, que almejo incorporar em mim mesmo, na sua alteridade. 2º) O outro que pretendo assimilar não é, de forma alguma, o outro-objecto. Ou, se preferirmos, meu projecto de incorporação do outro não corresponde, de modo algum, a uma recuperação de meu Para-si como mim mesmo, nem a um transcender de transcendência do outro rumo às minhas próprias possibilidades. Para mim, não se trata de fazer desaparecer minha objectividade objectivando o outro, o que corresponderia a me desembaraçar de meu ser-Para-outro, mas sim, muito pelo contrário, de querer assimilar o outro enquanto outro-olhador, e tal projecto de assimilação comporta um reconhecimento ampliado de meu ser-visto.
(…)
A unidade com o outro é, portanto, irrealizável, de facto. Também o é de direito, porque a assimilação do Para-si e do outro em uma única transcendência envolveria necessariamente a desaparição do carácter de alteridade do outro. Assim, a condição para que eu projecte a identificação do outro comigo é a de que eu persista em minha negação de ser o outro. Por fim, esse projecto de unificação é fonte de conflito, posto que, enquanto experimentando-me como objecto para o outro e projecto assimilar o outro na e por esta experiência, o outro apreende-me como objecto no meio do mundo e não projecta de modo algum identificar-me com ele. Portanto, seria necessário – já que o ser-Para-outro comporta uma dupla negação interna pela qual o outro transcende minha transcendência e faz-me existir Para-outro, ou seja, agir sobre a liberdade do outro.
Este ideal irrealizável, enquanto impregna meu projecto de mim mesmo em presença do outro, não é assimilável ao amor, na medida que o amor é um empreendimento, ou seja, um conjunto orgânico de projectos rumo a minhas possibilidades próprias. Mas é o ideal do amor, seu motivo e sua finalidade, seu valor próprio. O amor, como relação primitiva com o outro, é o conjunto dos projectos pelos quais viso realizar este valor.
(…)
Talvez isso fique mais claro se meditarmos sobre a questão pelo aspecto puramente psicológico: por que o amante quer ser amado? Se o amor, com efeito, fosse puro desejo de posse física, poderia ser, em muitos casos, facilmente satisfeito. Por exemplo: o herói de Proust, que instala sua amante em sua casa, pode vê-la e possui-la a qualquer hora do dia, e soube deixá-la em total dependência material, deveria ficar livre da inquietação. Todavia, sabemos que, pelo contrário, acha-se atormentado por preocupações. É por sua consciência que Albertine escapa de Marcel, mesmo quando ele está a seu lado, e é por isso que ele só se tranquiliza quando a contempla dormindo. Não há dúvida, portanto, de que o amor deseja capturar a “consciência”. Mas por que o deseja? E como?
Esta noção de “propriedade”, pela qual tão comummente se explica o amor, não poderia ser primordial, com efeito. Porque iria eu querer apropriar-me do outro não fosse precisamente na medida que o Outro faz-me ser? Mas isso comporta justamente certo modo de apropriação: é da liberdade do outro enquanto tal que queremos nos apoderar. E não por vontade de poder (…) Ao contrário, aquele que quer ser amado não deseja a servidão do amado. Não quer converter-se em objecto de uma paixão transbordante e mecânica. Não quer possuir um automatismo, e, se pretendemos humilhá-lo, basta descrever-lhe a paixão do amado como sendo o resultado de um determinismo psicológico: o amante sentir-se-á desvalorizado em seu amor e em seu ser. Se Tristão e Isolda ficam apaixonados por ingerir uma poção do amor, tornam-se menos interessantes; e chega até a ocorrer o facto de que a total servidão do ser amado venha a matar o amor do amante. A meta foi ultrapassada: o amante sente-se só, caso o amado tenha-se transformado em autómato. Assim, o amante não deseja possuir o amado como se possui uma coisa; exige um tipo especial de aproximação. Quer possuir uma liberdade enquanto liberdade.
(...)
1 comentário:
“O inferno são os outros”. E eu? Quero arder nessa “eterna chama”?
Estando o homem, nas palavras de Sartre, “condenado a ser livre”, até que ponto o “outro” (o amante/amado) interfere nessa liberdade? Será o “outro” o prolongamento ou a aniquilação do “eu”?
Sendo o “eu” um eterno “tornar-me”, um “vir-a-ser” – um “projecto” – até que ponto fará sentido dizer que o outro me muda, fazendo-me ser quem não sou?...
O amor ameaça, de facto, a minha liberdade? A minha alteridade? É o amor irrealizável, uma vez que as relações humanas são sempre de luta, confronto, angústia? “embuscada, astúcia, amargura”?
Terá Sartre razão ao afirmar que a liberdade, o conflito e a consciência caracterizam as relações humanas autênticas? Que as relações de amor são INAUTÊNTICAS, pura subjectividade, assentes em liberdades alienadas?!...
Condenando ao fracasso a relação de alteridade, condena-se ao fracasso o amor?
“POR QUE O AMANTE QUER SER AMADO?”
Francis Jacques dizia: “O amor é arquétipo da relação humana”.
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