5.4.09

domingo

Não tenho vontade de sair da cama. Já não consigo dormir mais, fechar mais os olhos e não pensar. Já não consigo não pensar mais.

A minha roupa foi deixada ao acaso no chão do quarto pelo cansaço e a pressa de não pensar mais. Quando acordei, hoje, senti, um leve cheiro dos sítios onde estive até de madrugada. Só. E a tua ausência voltou bruta e fria como da primeira vez, como se eu ainda não estivesse preparada para abrir os olhos e não contasse não ver-te. Abri as persianas e sentei-me na beira da cama à espera que a luz ocupasse o lugar dos meus medos. Este sítio não tem nada de teu. Só eu.

Deixei-me cair enviesada no edredão equacionando quem venceria a batalha do momento: a minha cama – talvez consiga voltar à letargia funesta do sono – ou a fome, que me incomoda mas não o bastante para, por si só, me fazer levantar. Vieste outra vez tu e a memória impertinente de ti a entrares noutro quarto deixando no meu colo o suborno que me obrigava a enfrentar as manhãs de domingo.

Sempre detestei os domingos, antes, durante e muito mais depois de ti. Desvio com o pé nu alguma roupa que esconde os meus chinelos. Enquanto procuro, antevejo a cozinha amontoada de chávenas sujas, de pacotes de bolachas vazios, copos de iogurte light que tombaram com o peso das colheres, pacotes de chá castanhos que murcharam com o frio, a planta que alguém da tua família me ofereceu, os cinzeiros a transbordar, papéis desordenados debaixo dos óculos de sol, um marcador solitário sobre a mesa que acolhe um prato cheio de migalhas e uma faca usada de manteiga – merda, esqueci-me de pôr a manteiga no frigorífico! Maços de cigarros vazios, maços de cigarros meio-cheios, maços de cigarros amarrotados. Se hoje não for às compras, penso, já não tenho mais nada para o pequeno-almoço de amanhã. Não me apetece nada ir às compras. Resisto a voltar para a cama e decido tomar um café. Queria tanto voltar a dormir!

Dou comigo a ordenar mentalmente todas as coisas que não me apetece fazer e como será menos penoso, finalmente, fazê-las. Vou começar por deitar fora o esparregado que congelaste há 3 meses, sobras de nós, os únicos restos que distraidamente ultrapassaram a distância quando nos separamos. Deve ser porque não há aqui roupa nem escovas de dentes, gillettes ou qualquer outra coisa do teu uso quotidiano e, por tudo o que já não há de teu à minha volta, se tenha tornado urgente eu querer desocupar o tupperware do esparregado. Detenho-me numa espetada de peixe congelada que não pode, jamais, ter sido uma escolha minha. Olho para o prazo de validade e entristeço-me ao reconhecer que o peixe-gato se conservará num futuro que nós não temos. Mas o peixe-gato traz-me outra ideia que quase me faz sorrir – não vai ser grelhado à pressa, numa qualquer sexta-feira em que chegas a minha casa num turbilhão de desordem, atrasado, à espera que eu discuta contigo por serem onze da noite e ainda quereres teimar em cozinhar. Bem-feito para o peixe-gato: não vai realizar o fim a que foi destinado!

Vou para a cama, outra vez! Não fui. Arrumei a cozinha. O quarto – já não fazia a cama há uns bons três dias. Praticamente não moro cá. Ainda tenho de fazer as compras. Também precisava de ti para me ajudares com as compras. Para não acordar sozinha, para não ter de me levantar e fazer o meu pequeno-almoço. Para não desperdiçar em casa os domingos de sol que começavam quase sempre com o teu telemóvel a anunciar o fim das sete horas a dormir abraçados.

Mais ou menos que acordo e vejo-nos em frente ao espelho do roupeiro, sentados na cama com as almofadas triangulares lado-a-lado. É domingo e dividimos o tabuleiro com as coisas que cada um de nós prefere comer. Inclino a cabeça para a deixar ficar no teu ombro e faço um registo desse minuto para que dure eternamente: “Vês como a vida nos dá momentos perfeitos? Esquecemo-nos tantas vezes de dar valor a um minuto de perfeita felicidade”. Tu concordas comigo e eu sinto que também me amaste durante este minuto. Afagas-me o cabelo com uma mão e com a outra desvias o pequeno-almoço que já não interessa. Apesar de termos voltado a adormecer ainda vamos a tempo de aproveitar o sol de domingo.

7 comentários:

Anónimo disse...

Boticas deveria ter sido o teu destino de Domingo.

Carrie (ou não) disse...

domingo...medida de valor do nosso tempo...
o dia em que os criadores descansam, satisfeitos com a sua obra...
mas depois há aqueles que não estão tão satisfeitos...muito menos depois do sexto dia...da sexta noite...

a sexta noite!

Carrie (ou não) disse...

é quando te apercebes se estás no paraiso ou no inferno...

miranda disse...

muitas vezes! quase sempre só percepciono os extremos ou só me detenho nos extremos (tn podia contemplar as extremidades, é verdade...). incrível é que quase toda a nossa vida é passada entre o paraíso e o inferno e não NO paraíso ou NO inferno, entre o preto e o branco...
como diria um amigo comum: o Gris!

na vida, invariavelmente, ignoramos as temperaturas amenas...

miranda disse...

se calhar até fui para boticas..., mas n neste domingo!

e podia escrever mais 159870000 páginas sobre as fisgas do ermelo!

e vilarinho das furnas, ohoh...

aqui entre nós, que "ng" nos vem ver..., CRESPOS é que vai ser! mas à sexta, né?

mil bjs! contente por teres vindo cá!

p.s. vou sugerir um nick pra ti... hummm, hummm... sorry, tou com uns estranhos lapsos de memória... hmmm (queres ser a minha Hummmm? - u make me wonder!!!)

Anónimo disse...

lapsos de memoria ás 8:09 são normais... ou não!!!! Manda o nick :)
ou fica lolita... eheheeh

Carrie (ou não) disse...

cada um tem os seus domingos...das mais variadas cores...este é o teu.

bj*