“Porque não há princesas encantadas em vez de príncipes encantados?”
Aos 19, o rapazinho esperava. Tivera namoricos infelizes, experiências trapalhonas com preservativos, observara pais separados lidarem com problemas que julgava próprios da sua idade e não da deles. Admirado, mas sem razão, no que a busca contínua e atroz insegurança diz respeito, nunca houve adultícia tão adolescente como a dos nossos dias! Os estudos iam bem. Os amigos? Fixes. Drogas, nem vê-las. Mas o rapazinho esperava. E desesperava… Dizia sentir falta de colo e compromisso. Não de casamento, nada de pressas exageradas!, de compromisso. Também há quem lhe chame relação com projecto, namoro estável, tanto faz, ele sonhava ser gostado por miúda especial doze meses por ano, sabia passageiro o amor, mas cobiçava um para sempre. Pessimista, referia que à sua volta todos pareciam preferir coleccionar relações a lutar por elas. O rapazinho sofria como um cão, em que Terra do Nunca se escondem as princesas encantadas?
Como um dos reclamos luminosos que, intermitentes, massacram a escuridão sem estrelas das nossas cidades, a palavra estereótipo cintila na minha cabeça. Se vos desse a carta a ler ocultando o sexo do remetente, aposto singelo contra dobrado que largariam suspiros de pena e compreensão divertidas pela “normal doença adolescente”…da rapariga! E porquê? Porque do texto se desprende e voa enorme nostalgia de “disponibilidade passiva”. Como se o rapaz dissesse, de mil maneiras: “sou um romântico e espero alguém que o descubra por detrás das minhas defesas. Quem o adivinhar ter-me-á todo, de preferência para sempre, como acontecia no fim das histórias que os velhos me contavam para adormecer”. E vem-nos à cabeça o beijo do príncipe encantado que despertava para a vida e amor. Daí a sua pergunta: porque não podem os homens dormitar de lábios prontos e acordar felizes? Na única história assim de que me lembro era preciso ser sapo!
É evidente que o “milagre” acontece aqui e ali, mas os estereótipos não favorecem o aparecimento de princesas tão activas e apaixonadas, ainda é dos homens que se espera, em geral, o primeiro passo. Por ser mais “natural”… Nos rituais de sedução, mas também no sexo puro e duro. Não é raro ouvirmos um homem dizer que tudo ia de vento em popa “naquela” noite. Bom jantar e melhor filme, ela risonha e de batuta erótica – seus marotos! – em punho: “Quieto!, hoje mando eu, não te atrevas a mexer um dedo, deixa tudo a cargo dos meus”. E alguns dos machos tentam desesperadamente explicar o que não atendem, de chofre algo dentro deles os “obriga” a deixar o conforto da preguiça curvada sobre o prazer e a serem activos para salvaguardar a sacrossanta masculinidade.
É verdade que olhando os (outros) animais tropeçamos sistematicamente em machos cortejando fêmeas, longe de mim negar a omnipresença dos instintos. Mas nós somos bichos culturais por excelência, não nos ficamos pela chaveta macho/fêmea, construímos e privilegiamos uma outra: masculino/feminino. Para lá da anatomia, envolvendo-a, existe a cultura, que determina os comportamentos e atitudes adequados a homens e mulheres numa dada sociedade e momento histórico. Ou seja, através da educação transformamos rapazes em homens “masculinos” e raparigas em mulheres “femininas”. É essa capacidade de ultrapassar e modelar as determinantes biológicas que nos torna humanos, cada vez menos presos aos instintos básicos e estereotipados, capazes da imaginação que gera a obra de arte e da angústia perante a futura e inexorável visita da morte.
As culturas mudam e com elas atitudes e comportamentos. Ouçam uma miúda de 16 anos: “Quando digo às minhas amigas que acabei com o X, se por acaso sabem que deixei de ser virgem com ele, quase sempre dizem «coitada, ainda por cima deixaste de ser virgem com ele!». Acho isto ridículo, porque só levam o ‘deixar de ser virgem’ para o lado físico. Mas eu fiquei magoada, não pelo facto de ter sido com ele que partilhei a ruptura do meu hímen, mas sim por ter partilhado com ele todas as minhas opiniões, por ter feito parte da minha intimidade”. Aos dezasseis já percebeu que o hímen pode ser um muito respeitável símbolo, mas não abriga o que de mais belo e frágil tem para oferecer. Aposto que dava uma boa princesa para o rapazinho. Quem sabe?, talvez se tenham encontrado por aí…

5 comentários:
engraçado....
esta foto faz-me lembrar EU.... lol... nuinha e tudo!
júlio... não acordes o mundo da fantasia é tanto melhor...*
acho que o interpretaste mal... :)
eu é que não deixo de fantasiar com ele, quando o leio... tão bonito não só pelo que diz, mas como o diz...com aquela suavidade, ternura...encanto!
É ele e o Mário Laginha...há qq coisa q eles têm semelhante...
:)
agora lembrei-me que eu já fui uma princesa encantada... numa festa cinderela hardcore!
interpretei-o muito muito, muito bem (a meu ver), por isso não quero q ele jamais deixe de sonhar (também ele), que ele jamais deixe de escrever textos tão fantásticos como este, que de uma forma quase singela nos fazem sonhar, ter vontade de cortejar, de privilegiar o outro e olha-lo*
;) (L)
eu fui a madrasta!!!! ups.... e ainda por cima madrasta hardcore...
então, fui eu que te interpretei mal, socorrendo, prontamente, o meu Julinho...
sorry*
sim...piscaste-me o olho e eu arreganhei-te o dente ;)
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