quero conhecer o autor
a escola de mulheres
Depois de ontem presenciarem a minha chegada a seguir ao almoço com uma caixa de sapatos de mulher —e de me terem feito mostrá-los e revelar-lhes que era um presente para essa noite— foi com espanto que hoje me viram chegar de manhã com a mesma caixa. Se as minhas colegas me conhecessem, e tal não acontece, poderiam até pensar que o momento dera para o torto, coisa comum, e que os sapatos voltariam para a loja e o dinheiro para o meu bolso. Por acaso não foi o que aconteceu. Contei-lhes que o pé não coube. Não coube? —perguntaram em coro— como assim? Não sabias o número? Sim, sabia; e expliquei-lhes que o soube através de uma discreta manobra mas que mesmo assim, com o número certo, o pé não coube. Pediram para ver os sapatos de novo. Então, segundo o que dificilmente apurei, as mulheres —ao contrário de um homem— nunca calçam o mesmo número. A biqueira, a inclinação do salto, se são sapatos ou botas, se são de pele ou de tecido, o fabricante e inclusivamente a altura do mês faz com que o número varie. Para mim, que sempre calcei o 45 e só conheço all-stars, chuteiras de râguebi e um par de sapatos ingleses, foi a descoberta de um mundo novo. Depois agradeci a lição e senti-me, uma vez mais, como o bronco do Arnolphe da 'Escola de Mulheres' do Molière.
Apenas quanto a sapatos, acrescento, pois de pés, e até pela quantidade de vezes que já levei com eles, percebo um bocado mais.
se o conto de fadas fosse nos dias de hoje,
a Cinderela estaria bem fodida.
o homem hipermoderno, pela manhã
O sumo de cenoura numa mão, o livrinho do Rousseau na outra e a caixa de sapatos de salto muito, muito alto, debaixo do braço para trocar porque afinal estão-lhe apertados. Eu, nada mais do que outra sombra na multidão da 5a Avenida.
"Man was born free, and he is everywhere in chains."
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15 comentários:
I think I'm in love...
mais dele:
"o mito do Amor Incondicional morreu
E isto é tão verdadeiro que o único verbo realmente adequado para falar de amor é o Condicional: Ela amaria se. Pois no amor —independentemente do [seu] passado ou futuro— há sempre uma condição.
O que vier, se vier, só virá depois disso."
"das referências
Se 'O Estrangeiro', de Camus, com o seu absurdo do Acaso é um dos meus livros, será igualmente justo dizer que 'L' Année dernière à Marienbad', de Resnais, com as suas variações do Acaso é um dos meus filmes. No fundo — como Meursault — ando à deriva. No fundo — como o Estranho — ando ao engano."
"subway stories (2)
No meio da multidão em hora de ponta um homem tocava violino. Pus-me à sua frente a escutá-lo. Quando o metro chegou ele parou e disse-me 'Scheherazade'. Eu sei, respondi-lhe, de Rimsky-Korsakov. Perguntou-me então se eu era russo. Expliquei-lhe que não, embora com este sotaque que Deus me deu às vezes também pense que sim. Entretanto as carruagens encheram, a estação esvaziou e eu agarrei nos dois dólares que tinha guardados para o bagel tostado e pedi-lhe se a tocava outra vez. Ele fez-me o favor. E assim, no meio daquela estação deserta, o meu pequeno-almoço foi uma dose de melancolia.
Play it again man."
"amor entre músicos
Ela pediu-lhe um tempo, ele deu-lhe um compasso."
"subway stories
Hoje no metro entrou-me uma coisa para o olho.Tinha um metro e oitenta e era morena de olhos azuis."
Pedro...és o maior!:)
"1/1 000 000
Uma das perguntas no inquérito do magazine era se 'a qualidade intelectual de uma mulher conta'. Fiquei mesmo algum tempo sem saber o que responder. Quando coloquei mentalmente a cruz no sim o resultado foi o que se viu."
"poesia japonesa
Caiu ontem a primeira neve do ano na cidade.
Levei ontem o meu primeiro não.
Vai ser um longo Inverno."
"dos cabrões
Há os que o são sem querer sê-lo, como o Harry de 'Sommaren med Monika' (Bergman, 1953) e outros há, como o barone em 'Divorzio all'italiana' (Pietro Germi, 1961), que não o são, fazem tudo para vir a sê-lo e quando pensam que já não o serão, acabam finalmente por sê-lo sem saber. Ainda há outros: os que não o são mas comportam-se como se o fossem."
o nome do blogue?!...
não digo, não digo, não digo! ;)
(por enquanto)
"as mulheres, os homens e o número de homens das mulheres
Quantos tiveste antes de mim? A pergunta salta entre o ciúme dos homens. Para uma mulher nunca interessa saber nem tão pouco responder. Uns seguramente serão esses enganos impossíveis de refazer, outros serão essas paixões impossíveis de ultrapassar. Mas tudo é passado, metido numa gaveta no fundo do subconsciente. O que conta é o Presente. Contudo o ciúme é insensato e imprudente e torna a questão numa cruzada momentânea. O homem e o seu sentido de propriedade & posse, esse perpétuo erro crasso masculino. E por isso, ano após ano, vida após vida, a questão aparece repetidamente até encontrar uma resposta. E qualquer que ela seja — dois ou trinta — para um homem serão sempre demasiados. Melhor nunca perguntar, melhor nunca responder."
tudo o que sempre quiseram saber sobre um homem e não tiveram coragem de lhe perguntar...;)
"having dogs
Para as mulheres de Nova Iorque os projectos de futuro a dois não se traduzem em having kids.
Ficam-se pelo having dogs. O que diga-se de passagem já é compromisso sério que chegue.
Para antes dos quarenta."
"o universo desconhecido
É amplamente sabido o quão perigoso pode ser para um homem a sua ingerência em assuntos do universo feminino. Por isso, sabendo que a sensatez vale ouro e as figuras-de-urso não pagam contas, faz-se o esforço para responder monossilabicamente; ou pelo menos evita-se mandar postas de pescada ao ar. Contudo, nem sempre é assim de fácil. Como ontem, por exemplo, que enquanto me mostravam umas unhas pintadas de um branco meio transparente me perguntavam se eu sabia que cor era aquela. Ora bem, eu sei que sou um canastrão mas não sou daltónico e por isso a resposta não seria obviamente o 'branco'. Dei ares de eloquência e arrisquei 'pérola' —não— seguidamente tentei 'marfim' —também não— e por último fui ainda mais piroso e soltei 'porcelana chinesa'. Tão-pouco acertei. A resposta correcta era 'nude attitude'."
sem dúvida, ele é a carrie em formato masculino!
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