15.7.09

...como se não houvesse amanhã!


A paixão tem uma campanha de marketing internacional muitíssimo bem orquestrada. Não há crise que se meta com ela. Pelo contrário; todas as crises a agigantam - a própria ideia de crise é passional, extrema, desesperada e alienante. A paixão anula as escolhas - impõe-se-nos como um caminho sem saída, ou com uma única saída. Também por isso é tão fácil de contagiar: escolher é difícil e causa sempre problemas. Escolher força-nos a dizer não, implica responsabilidade. É muito mais simpático dizermos que não tivemos escolha e que fomos levados na enxurrada... mesmo que na realidade a enxurrada tenha sido a nossa escolha - como efectivamente sempre acaba por ser. A escolha da perdição permanente tornou-se tão burguesa como a escolha de um sofá e de umas pantufas. Ser romântico poupa muito trabalho e rende muito: "coitadinho, não consegue deixar de se apaixonar, é mais forte do que ele". Mais do que tolerância (terrível palavra), o apaixonado crónico concita o afecto dos que o rodeiam, a começar pelas suas vítimas. A paixão faz sempre vítimas, e a verdade é que esse não é o seu menor encanto. Ouço cada vez mais gente a dizer: "Tenho o vício da paixão, adoro x mas não consigo deixar de me apaixonar também por outras pessoas". São mais os homens, independentemente da orientação sexual, que dizem isto.
Não é que as mulheres não tenham vontade de dizer a mesma coisa - mas dizem-no em surdina e confissão restrita, porque os padrões de comportamento socialmente admitidos só em teoria são uniformes. Provavelmente será desumano amar uma vida inteira uma só e mesma pessoa. Mas será humano amar este e aquele e outro e toda a gente, como queria Florbela Espanca - que morreu disso?
O sábio Vinicius de Moraes disse tudo o que até hoje podemos saber sobre o amor nos célebres versos do "Soneto da Fidelidade": "Que não seja imortal, posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure". A duração desse infinito não se exerce a um ritmo constante, como classicamente se pensava: há cortes, vertigens, interrupções, retomas. O protagonista de "A Fera na Selva", de Henry James, perdeu a paixão que tinha por passar a vida à espera dos sinais grandiosos dessa mesma paixão (que o armadilhou pela suavidade da sua aproximação, contrária aos anúncios míticos). Hoje, arriscamo-nos a perder o protagonismo da nossa vida amorosa por transformarmos o coração num motel de alta rotação - e perdermos de vez a felicidade gloriosamente triste de sentir borboletas no estômago com a aproximação dessa voz que responde ao que nos falta. Toda a paixão é, por natureza, triste, porque mortal. O prolongamento da vida acentua essa mortalidade e obriga-nos a trabalhar o amor com o afinco de uma obra de arte - que depende muito mais de imaginação e vontade do que dessa celebrada deusa nunca vista chamada inspiração.
A poesia, como as canções, é um método de luta contra a dissipação da paixão, fixando o seu fulgor para matar a morte que a circunda sempre (e que a torna erótica). O trabalho dessa dupla genial formada por Tom Jobim e Vinicius de Moraes foi esse: eternizar o perecível, transformar o espelho frágil da paixão no cristal de conhecimento que é o amor. O musical "Tom e Vinicius", escrito por Daniela Pereira de Carvalho e Eucanaã Ferraz, agora em cena no Rio de Janeiro, revela-nos a história de uma amizade (que é uma outra forma de amor, com os seus momentos altos e baixos, as suas idas e vindas) inteiramente dedicada a fixar a temperatura da paixão, contra os rigores do tempo.
A publicidade, o cinema, a literatura, a música e os media exaltam a excelência do estado passional contínuo. A mim, basta-me folhear meia dúzia de edições seguidas das chamadas "revistas do coração" para ficar deprimida - e não é por inveja, mas por tédio: quantos casamentos à beira mar em ilhas paradisíacas pode uma só pessoa aguentar, sem desatar a chorar de tédio ou de desamor? Quem vai amar todos estes amantes desenfreados quando a cirurgia plástica já não tiver mais por onde esticar ou quando uma doença os atingir? Regressemos à toada provençal de Vinicius, na voz do seu Orfeu ("Orfeu da Conceição", tragédia carioca em três actos, de 1954) "Vai teu caminho que eu vou te seguindo/No pensamento e aqui me deixo rente/ Quando voltares, pela lua cheia/ Para os braços sem fim do teu amigo!"

Inês Pedrosa
18 de Fev de 2009

2 comentários:

miranda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
miranda disse...

carissima inês,
nem a ideia da paixão burguesa é nova(e muito menos passou despercebida neste blog) nem só os homens se desculpam... na verdade, ANDEM aí uns assassinos/as da paixão!!! be afraid!