16.8.10

libertango



(ler como quem dança)
Eram loucos um pelo outro. Tão loucos eram que cometeram a loucura maior:
separaram-se. Ela casou-se com um homem de profissão ‘séria e respeitável’, teve filhos e foram
morar para Nova Iorque. Ele partiu para as Américas (do Sul) e teve casos e romances com as
mulheres das mais diversas nacionalidades latinas.
Teriam uma vida como qualquer outra, não fosse o facto de que ambos terão a vida que o outro sonhou para si mesmo, vivendo a vida que, supostamente, estaria destinada para o outro. Ela realizará os sonhos dele. Ele realizará os dela. Só assim ele a sentirá. Só assim ela o sentirá.
Ela havia-o pressentido uma noite, quando tiveram que se vestir apressadamente, às escuras, para não serem surpreendidos nus um para o outro, por alguém que tentava abrir a porta. Nem tiveram tempo para se aperceberem que tinham vestido algumas peças de roupa trocadas. E gestos e expressões, pensamentos. Pedaços de si misturados. A vida despertou-os desprevenidos.
A maioria dos ‘outros eles’ apenas a tocaram na superfície, trocando cargas eléctricas, energias, fluxos. Não ele. Ele havia-a tocado no núcleo, em fusão, e, quando isso acontece, toda a essência se altera. Não são apenas alterações passageiras, mudanças nos estados de alma, mas alteração
da própria alma.
Um dia, ela separar-se-á do seu querido marido perfeito (um outro dia, no passado, tinham
decidido que seria ela a tomar a iniciativa, quando tivesse que ser). Ele… num qualquer destino
exótico. Ou... provavelmente, Buenos Aires. Onde mais poderia ser? (“Faz girar este globo e vê
onde é que ele pára. Encontramo-nos lá.”) Suando. Refrescando-se com uma ventoinha,
enquanto lê um livro.
Não saberá bem porquê, mas, nesse dia, não deixará o telemóvel no
quarto da pensão, como faz habitualmente. Esse momento, no seu bar favorito, às 6h da tarde,
é só dele. Não parará de olhar para o maldito telefone. Mas este não tocará. Não ainda.
Volta para o quarto. Já meio adormecido, naquele momento em que as imagens que passam pelo
cérebro ganham velocidade e independência de quem as pensa. Deixam de ser como
fotografias, quase estáticas, para passarem a suceder-se como num filme. Finalmente, às
22h23, o telemóvel toca.

- Onde estás?
- À tua espera.

One last tango, ou o primeiro do resto das suas vidas? Não interessa, Dançam.

- Odeio-te. Não consigo morrer sem ti.
- Lembras-te como eu te costumava matar? Incompletas-me…

Adormece agarrada a ele.
Há uns anos atrás, era ele quem adormecia agarrado a ela. O corpo
dela sempre se havia moldado a colchões vazios. Não se adaptava facilmente a abraços.
Sentir um respirar que não era o seu deixara-a sempre em alerta para a presença de uma outra
vida. E ela não conseguia adormecer a responsabilidade de zelar por quem está tão próximo.
Desde que se separaram, ela passou a ter insónias.
Uma inquietação percorria o corpo dele. Beija as mãos dela. Mas não queria acordá-la. Receando que ela despertasse com a agitação dele, levanta-se. Aproxima-se da janela para fumar um cigarro. Olha para o bilhete de regresso dela, em cima da mesa-de-cabeceira. Hesita, mas, por fim, pega nele. Não pode mais esperar por saber quando o deixará ela, novamente.
Mas até quando continuará ela a surpreendê-lo? É o nome dele, e não o dela, que está
impresso no bilhete. Afinal, a apreensão dela (que o consumia) não era pela dúvida dela ficar
ou não com ele, mas deixa-lo partir ou não.

Ela tinha vindo devolver a vida dele.
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