5.6.08

Frágil: longe de E. Fromm e E. Levinas

Ultimamente dizia-lhe, muitas vezes, que o amava. Sem se preocupar com os referentes da palavra. Cada vez que se ouvia dizer-lhe que o amava tinha, apenas, a frágil certeza de que era o que, no momento, os sentidos do seu corpo confessassem à pele dele.

Ela já o tinha amado, há muito tempo atrás, esse amor convencional destituído de âncoras e cumplicidade profunda. Esse amor que toda a gente deseja de ter de alguém, dar a alguém e, tão, conceptualmente partilhável, tão convencional. Ainda que pela primeira vez estivesse, frágil, a partilhar a aspiração comum-universal sobre o amor. E sabia que era proibitivo dizer-lho, então, porque não se haviam nunca fundido num espaço correlativo: ele não sentia amor, convencional que fosse, por ela.

Por isso, despediu-se muitas vezes dele, todas as vezes que a razão lhe permitiu fazê-lo só para antecipar um fim natural e evitar que o tempo a radicasse cada vez mais a ele até ao dia em que, sabia, ele se iria embora. Teorizava a economia da dor que a ausência dele haveria de trazer. Mas, amava-o e ia regressando, fraca, frágil, àquele não-amor.

Finalmente, ele foi embora e a dor dela proporcional aos dias e às horas, aos telefonemas e às mensagens, às férias e às noites juntos. Quando ele a deixou ainda não tinha começado a desamá-lo, sequer – apenas tinha ideia que devia fazê-lo.

A única coisa que pensa, agora, quando fica sozinha depois de lhe dizer que o ama é que espera – sem certeza alguma - que não seja verdade. Por ela. Porque ela tivera uma trabalheira enorme em desamá-lo, finalmente. Porque despendeu tempo, energia, lágrimas e telemóveis e alguma loiça de casa que foi, de quando em quando, partido – observando os cacos de si espalhando-se das paredes para o chão.

Não lhe chateia a alma terem voltado. Mas fica fodida ao colocar a hipótese de que voltou a amá-lo. Ainda que seja o tal amor convencional, sem filosofia ou teleologia com que se ralar. O amor não vale nada, esse amor de jantarem juntos e irem ao cinema, de passearem na praia e se telefonarem todos os dias em que falam das urgências profissionais de cada um, preocupando-se genuinamente e apoiando-se mutuamente nos seus desaires quotidianos, esse amor de fornicarem e no fim trocarem a palavra “amo-te”. Mas têm o que toda a gente tem, teve ou terá e isso, pensa, já não é mau de todo.

Para onde quer que olhe e veja amor só vê esse amor convencional. Esse que é limitado pela cidade, pelos amigos, pela família, pelo transe. E ela sabe que nunca vai aceder a mais do que esse amor conheça ela quem conhecer. O que os torna frágeis é que ela nem sequer o quer amar convencionalmente. Mais frágeis do que os outros, mais sujeitos à desistência. Ela nunca mais o quer amar.

O amor convencional é matreiro: podemos amar duas vezes a mesma pessoa mas será que podemos desamá-la duas vezes, também? Todo o amor deste universo comum é demasiado frágil, demasiado pobre para se arriscar. Jura que não voltará a amá-lo.

Frágil é que ele possa viver com isso e até dizer que a ama também, na lastimável realidade de nunca virem a ser AMOR, de nunca conhecerem a ALTERIDADE – afinal, como toda a gente, como as pessoas que ele conhece, como as pessoas que ela conhece. A grande diferença entre o mundo dele e o dela é que se se aproximam na partilha de uma vivência convencional do amor, mas no mundo dela – re-conhecem-na bem - ninguém a chateia com isso ou a desafia como se ela fosse obrigada a dar explicações de tabuada a sujeitinhos e sujeitinhas, menicaquinhos, que concorrem ou pretendem concorrer a um altar, cheios de amor convencional, jurando a pés juntos que o que multiplicam entre si é o AMOR pelo OUTRO. O AMOR. Cortejos de máscaras que parecem o Carnaval de Veneza… e depois, ela, ela que parou para experimentar pensar sobre a universalidade das coisas é que recusa desnudar-se ontologicamente?

O Rosto livre, meu amor convencional, não se passeia entre travessas e copos de vinho branco e isso não se pode explicar enquanto se apaga um cigarro e se acende outro com ar inquiridor – para se responder sobre o Mundo, sobre o Amor ou sobre a Morte, sobre a Vida até, é fundamental que haja quem tenha disponibilidade para abarcar uma visão de Si inteiramente diferente daquela a que se habituou.

E é tão raro, digo-te e fundamento, encontrar alguém com coragem para, de repente, se ousar desconstruir, fragilizar-se. Quando me perguntam, meu amor convencional, eu sei, sei antecipadamente que não me perguntam porque querem saber a resposta – não há assim tantas pessoas preparadas para a resposta. E se eu, por ventura, for levada a responder terei de o fazer com verdade – eu Amo a Verdade, e irei chocar, provavelmente magoar, tentar perpassar moléculas de vasta indignação mas ninguém me ouvirá. Sobre mim levantar-se-á a negação intransigente da reacção – e francamente, não tenho paciência para plantar guindastes que do solo se levantaram mas ao solo não chegam.

A nós, acredita-me, bastar-nos-ia o amor convencional – esse que não podemos ter. O que basta a todos, e a que quase todos aspiram, o frágil amor convencional.

Um dia, ela foi-se embora dele.

3 comentários:

miranda disse...

para carrie (ou n),
dedicado a M. e a M.: o meu amor menos e mais convencional, respectivamente.

Carrie (ou não) disse...

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

Sophia MB

Anónimo disse...

Medo de amar e chegar ao amor convencional...mas medo também de amar e não chegar nunca ao amor convencional...

With love...B.