De todas as diferenças entre o desejo sexual dos homens e das mulheres, a que mais intriga os cientistas, sobretudo os do sexo masculino, é a questão da variedade. Muitos afirmam decididamente que as mulheres se interessam menos do que os homens na cópula com diferentes parceiros.
O argumento deles é que ao longo da história profunda os homens que fizeram sexo com muitas mulheres dispersaram indiscriminadamente o seu sémen, transmitindo o gosto masculino pela variedade sexual. Como as mulheres só podiam ter um pequeno número de filhos ao longo da vida – e cada cópula implicava o risco de engravidarem e virem a ser mães - , tinham uma predisposição para uma maior selectividade do que os homens.
Concordo que as mulheres são, na sua maioria, mais discriminativas do ponto de vista sexual do que a maior parte dos homens. Há, no entanto, provas irrefutáveis de que as mulheres têm tendência para procurar alguma variedade sexual.
Uma dessas provas tem uma base biológica. Os cientistas afirmam que os homens têm três tipos diferentes de esperma, cada um deles com uma função diferente. Os «atacantes de óvulos» nadam pelo canal vaginal ao encontro do óvulo. Os «bloqueadores» amontoam-se para bloquear qualquer invasão de esperma estranho. E os «matadores» atacam e matam o esperma desconhecido. Se assim for, o sistema masculino de ataque e defesa contra a presença de esperma desconhecido no canal pélvico é uma prova considerável de que as mulheres primitivas tinham um olhar muito deambulatório.
Igualmente importante é o facto de as nossas antepassadas poderem ter tido vantagens consideráveis, caso tivessem vários homens: mais recursos, nomeadamente mais comida e protecção, contactos sociais valiosos e até mais esperma diferente ou de qualidade superior.
Segundo os dados históricos que dispomos, os homens devem ter feito coisas inimagináveis para suprimir o prazer sexual às mulheres. A excisão do clitóris em certas regiões de África, o véu em muitas sociedades muçulmanas, o isolamento das mulheres na Índia tradicional, os pés ligados na China tradicional, damas de companhia e cintos de castidade na Europa medieval: tudo isto sugere que em muitas culturas os homens consideravam a libido feminina como algo de poderoso – e versátil.
O mais curioso neste debate é a singular falta de atenção que os cientistas deram à matemática básica: com quem andam todos estes machos robustos a copular?
Se os homens têm mais parceiros sexuais do que as mulheres, como todos os estudos indicam, ou há umas quantas mulheres hipersexuais que andam a fazer sexo com uma quantidade enorme de homens, ou os homens estão a exagerar nas suas conquistas e as mulheres a exagerar nas suas virtudes. Num estudo cientifico convincente, a psicóloga Dorothy Einon, do University College de Londres, conclui que ambos os sexos podem estar a mentir relativamente às suas escapadelas: as mulheres têm provavelmente mais parceiros sexuais do que dizem ter; e os homens têm muito menos.
Apesar da actual posição ortodoxa dos cientistas de que os homens estão muito mais interessados em fazer sexo com vários parceiros, há muitos dados que sugerem que as mulheres têm um longo passado de concupiscência.
O Primeiro Sexo, Helen Fisher
2 comentários:
Bem, querida Miranda...
Chegaram um pouco tarde, mas espero que estes textos te sirvam de "amuleto", futuramente, contra maus-olhados de espíritos hostis e mal informados... ;)
a tua clareza é absolutamente excitante e atordoa-me. atordoa-me menos a ignorância que grassa por aí embora me tenha quedado angustiada, como sabes, pela teimosia sistémica da própria ignorância (creio que a segunda n sobreviveria sem a primeira)...portanto, só falta que o resto da hOmanidade se convença desta "verdade inconveniente" que acabas de analisar.
;)
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